Somente uma reflexão e flexão.
A soberania do universo nos deu um corpo repleto de segredos. Um deles é o olho. A visão. Tenho me dedicado ao estudo da percepção visual, pelo cinema e fotografia. Nada de formalismos ou diplomas comprovantes por isso, nem quero esse papel timbrado, a experiência me basta, assim como bastou para Le Corbusier e como basta para Tadao Ando. A visão que utilizamos para tudo como um "guia", a luz e é de suma importância esta surpresa que a soberania colocou diante de nós. O que seriamos sem a visão? Seriamos homens, homens ainda. A visão é só mais uma surpresa de nosso corpo. Aqueles que não vêem, se surpreendem com outros mistérios que eles mesmos desvendam, assim como aqueles que não ouvem se surpreendem com a visão e os movimentos que transmitem sinais.
O dia de hoje foi necessário para perceber grandes coisas, mais algumas surpresas. Colegas inúteis e úteis, eis aqui a surpresa da arquitetura: A arquitetura não pode ser somente vista, ela tem que ser sentida. O grande mal de nosso século é que confiamos 100% na veracidade da visão e achamos que a visão é a única tradutora de verdades (sendo "tradução", quase uma espécie de traição do verdadeiro) e aqueles que não vêem? Sim, aqueles que dependem do tato, da fala, do cheiro e do gosto, eles deixam de conhecer uma certa veracidade nas coisas, somente por que não tem visão?
Aqui o cinema e a fotografia se tornam praticamente inúteis. O cinema ainda tem a fala e a música, mas no seu começo era somente a ação em sua natureza, sequência de fotos em alta velocidade de rotação e a fotografia é "somente" superfície. A arquitetura não é uma superfície. Não somente projetamos e construímos planos, nós produzimos ambientes, despertamos sensações, abrangemos todas as surpresas que nosso corpo tem, até mesmo o cheiro e o paladar, dependendo dos materiais e da localização do projeto. Sinceramente, o paladar é mais complicado, pois não vi ninguém até agora sentindo por meio do paladar a arquitetura, mas se for necessário estudar para comprovar que arquitetura também atinge o paladar, me desvencilharei em comprovar este fato, para mim e pra vocês.
Sinto que estamos vivendo na ditadura visual. O teatro quebra esse paradigma e é por isso que ela está intimamente ligada a arquitetura, porém ela não é arquitetura em sua concepção, mas pode tornar-se. Estamos intimamente ligados ao visual, mas este visual esta deixando de ser uma das ferramentas para se entender arquitetura e passa a se tornar em uma muleta para o ensino. Desenhamos mais do que fazemos modelos volumétricos. A grande maioria age assim. Economizamos a arquitetura a um papel, quando mais tarde ela ocupará um espaço gigante, real. Então por que nos apoiamos no visual? Poderia entrar agora no âmbito de percepção, da psicologia e da sociologia, a criação de rótulos por meio da visão. Julgamos livros pelas capas, filmes pelas críticas, arquitetura pela plástica. E? Isso é completamente errôneo! Opinar e criar argumentos sobre uma obra arquitetônica pela fotografia, é como preferir a masturbação do que ao ato do verdadeiro sexo. Deixemos de ser preguiçosos, arquitetonicamente falando. As fotos trazem lembranças, mas não são as lembranças. Um dos motivos pelos quais gosto muito do Álvaro Siza é por que não somente vi o espaço pela fotografia e sim por que conheci o espaço, a prolongação, minha escala diante de muitas obras dele. Nossa produção arquitetônica esta cada vez pior por que somente vemos arquitetura e não sentimos arquitetura.
Nesta tarde pensei se existe no mundo um arquiteto cego. O que impede de um cego fazer arquitetura? Imagine um arquiteto cego que nunca desenhou, somente ouviu, sentiu, e praticou a arquitetura em modelos volumétricos, utilizando o tato como principal ferramenta, em vez da visão. Um arquiteto "desligado" no visual, ligado no sentir o ofício e a riqueza que arquitetura permite. Claro que muitos riscos, limitações e conflitos estariam presentes, mas isso pode ser superado. Nós que temos "visão", fazemos projetos esquivos e medíocres... é fazer arquitetura estética. Famosos arquitetos cabeleireiros ou esteticistas. Me sinto fracassado quando sou um arquiteto hipócrita, omitindo verdades, não aproveitando as surpresas de meu corpo para a produção de uma boa arquitetura. A arquitetura não é somente visão. É mão, pé, nariz, boca. Um cego sente o tamanho do espaço pela reverberação do som, a sua voz potencializa a sua localização, o tato permite enxergar mais além do que cores. Um arquiteto completo não somente vê. Juhani Pallasmaa no livro "Os olhos da pele" ele reflete sobre essa percepção do espaço utilizando os dispositivos sensitivos do corpo por inteiro.
Não sei, mas seria possível criar uma matéria dentro da grade curricular do ensino da arquitetura, para potencializar a arquitetura “sem visão”? Caberia uma longa e calorosa discussão em mesa de bar, onde os sons dos pratos e copos, o calor, o frio, a movimentação e até o paladar estariam presentes. Se a arquitetura fosse somente visão, viveríamos de superfícies. O homem pré-histórico foi mais arquiteto que nós. Soube que precisaria de abrigo (teto), proteção (isolamento), espaço (local). A caverna não foi um painel, foi isso, os três juntos: a necessidade, o metro cúbico. Acho que não necessitamos de mais nada, vivemos de superficies, arquitetos superficiais, arquitetos mortos. Nos contentamos com fração de arquitetura, arquitetos resumidos, abstracts rancorosos. Nos contentamos com o desenho de uma janela no papel e não com a função da janela: a permissão de fechar (obstruir) e abrir (permitir) que é diferente que uma visão simplista da "abertura". Assumimos papel de personagens itinerantes, efêmeros, mas não somos arquitetos humanos. Queremos constantemente viver morrendo.
Seria loucura sonhar em criar o primeiro centro de pesquisa e ensino de arquitetura para cegos, com vagas para “videntes” que querem ser cegos e aprender a fazer uma arquitetura mais digna?
A Escola da Cidade já pensa mais ou menos assim. Durante o curso, as turmas viajam para diversos lugares. Detalhe, o curso é bem caro.
ResponderExcluirabração