sexta-feira, 10 de junho de 2011

Dentro

Cala-te. Mereces tanto o silêncio, como eu mereço o barulho desta rua, com os copos batendo-se entre si, brindando o tempo, os gelos batendo nos copos, as pessoas batendo-se entre si, estranhando-se e não estranhando, cumprimentando-se, estalando o corpo, esboçando-se, produzindo sons, como o do garfo sendo pousado no prato vazio, o arrastar da cadeira, o pedido de licença, o pedir do cardápio, o abrir da garrafa, da lata e de vez em quando uma risada que se destaca dos outros sons que parecem se respeitar, mesmo nesse caos onde tudo é quase tudo, mesmo não tendo significado nenhum para mim, pois sou eu que estou nesse meio, esquentando as mãos na jaqueta e de vez em quando tossindo seco. Cala-te. Porque não ficas em silêncio? Não consegues ficar um minuto sem lotar a minha cabeça de mais e mais diálogos incorretos, assim como é incorreto o caminho que trilhas, entre as névoas da realidade declarada. Atrasas a minha vida, me cegas com tuas palavras com teus verbos colantes que se amontoam, se aglutinam diante da minha retina, atingem meus nervos e me fazem tremer e tremer e tremer, e tremer já é um movimento repetitivo, mas tu o fazes multiplica-lo e acabo sentindo tremer o chão, os prédios, as vozes, o céu. Mas não te calas. Nunca iras calar-te. Estas dentro de mim, reverberas, te expandes, ocupas os poucos nichos que ainda tenho vazios. Fico mais desapontado, quando na verdade eu finjo que isso não é uma lembrança. Eu sei onde as lembranças ficam: em algum lugar que desconheço. 

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