terça-feira, 7 de junho de 2011

Diálogo entre Filipe e Carlos.

A direção dos ventos foi norteada pelo pensamento daquele que sabe que não é nada. E ser nada é ser alguma coisa, coisa disponível, estado de ausência. 

- Boa noite, Carlos. 
- Boa noite Filipe... vi que você me ligou, desculpe por não retornar a ligação. 
- Não faz mal, eu sei da tua correria. 
- Nem me fale, ainda estou me adaptando.
- É... na verdade eu te liguei pra saber como você estava, afinal, parece que é mais fácil eu dormir bem do que falar contigo (neste momento Filipe espreguiçasse na poltrona do escritório e depois apoia-se na mesa, pegando a lapiseira nova e rabiscando qualquer coisa no caderno de reuniões)
- Não exageres (risos), já me desculpei. Mas sobre mim (pausa para uma tosse seca que se prolongou mais do que o normal). Sobre mim não te digo muita coisa, como dá pra perceber ainda não estou cem porcento, o que tem dificultado o atendimento com meus pacientes.
- Imagino... e entrar no ritmo depois desse susto, não é fácil. 
- Nunca foi fácil, né? Mas a gente se acostuma com essas sequelas do viver. Como diria um dos meus tios: "viver tem seus prós e contras..." 
- Eu que o diga... do meu lado eu tenho chiado, principalmente depois que ela viajou.
- Fiquei sabendo dessa história... e como você tem lidado com isso? 
- Lidado? Eu não sei lidar com nada, não sei lidar bem, na verdade não me importa o jeito com que lido com isso. 
- Como sempre indiferente, né?
- Indiferente é ser neutro?
- Sim. Pelo menos pra mim é. 
- É, então devo estar indiferente... (fez-se um daqueles silêncios compridos, que dá a impressão que a ligação caiu) 
- Bem, não precisamos entrar em detalhes, essas coisas vão passar. 
- Como sempre passam, como o vento... falando em vento, você tem que ver a ventania que está por aqui, vai cair um pé d'água!
- Aqui já choveu, choveu pela manhã deixando o quintal um lamaçal e olha que eu queria ter saído pra fazer umas comprinhas no mercadinho, mas fiquei com preguiça de calçar umas botas. 
- Você ainda está morando na chácara, né? 
- Vou ficar por aqui mais uns dois meses, é meu plano. Depois vou procurar uma coisa perto do consultório. 
- Vai esperar dois meses para isso? 
- Ah, vou. É o tempo da primavera acabar. 
- Fazes bem, invejo o lugar onde moras, se eu pudesse não moraria nesta cidade turbulenta que só me deixa mais cinza. 
- Você sempre foi meio cinza. 
- Eu sei... 
- Bem, olha, eu preciso resolver algumas coisas por aqui, escrever o finalzinho de uma carta. 
(Filipe olha o relógio, sente a mão esquerda tremer e um leve aperto no tórax)
- Carlos, quando puder, ao menos escreve para mim também. 
- Você vai ler ou a tua indiferença desgastou até o teu senso crítico? 
(Filipe engoliu seco)
- Vou ler e enviarei a minha devida resposta. 

...

Minutos depois, o ser de ausência desligava o telefone com a impressão de não ter dado o "adeus" como devia ao seu amigo afastado. Nos outros tantos dias que vieram, Filipe leu todos os textos que Carlos escreveu e começou a escrever sua critica, o problema é que ele nunca a enviou para Carlos. 

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