sexta-feira, 17 de junho de 2011

Me ache em outro lugar. Cabul, Quito, Espinho ou em mim.

Longe dos meus dias bons, tudo parte de um rascunho interminável, estendido pelos dias cinzas e azuis, por todas as estações vividas no resumo de 24 horas. Esse rascunho é feito pelo lápis que seguro com as mãos trêmulas, talvez pelo fato de estar sempre com a outra mão ocupada, seja coçando a cabeça ou o bigode, seja segurando um cigarro torto. Meu rascunho, meu desenho de mim mesmo, pois sempre desenho uma máscara tão minha que eu chego a desconhecer e me surpreendo, mas no final acabo sabendo que sou assim, do jeito oposto do que eu desenhei, negativo de minha própria imagem. Uma vez, até posso lhes contar -será que escrevo "lhes" ou "te"?- rascunhei um abismo, e neste abismo me vi. Não era um abismo natural, era sim um espaço construído, blocos solidificados, que somando-se, criavam uma parede extensa, alta, e que nessa parede-muro somente eu podia ter acesso ao seu cume e lá de cima, eu via o abismo-eu. Tamanho era o muro criado por mãos humanas, que pensei no sentimento de vertigem descrito por Solano Benitez. No abismo eu estava e ouvia os sons da minha metrópole, desde a campainha tocando, o som dos saltos no taco do andar de cima, o estralo dos beijos de algum casal, a buzina aguda de uma moto desesperada passando entre os carros, a catraca girando, um isqueiro sendo acendido, um suspiro distante mas profundo. Ali, tudo na beira do abismo visto de cima. Aquilo era eu, um desenho meu, desenho audível. Me veio então a ideia de pular, mas como posso pular em mim mesmo? 
Este abismo levo pra qualquer lugar, ele me acompanha, afinal, o abismo sou eu. Não me ache nas cidades, não me ache onde você tem certeza que vai me encontrar. Eu só estou em mim mesmo. 

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