Assim aspirei o ar da manhã, querendo ser pia e ralo, ser água e sombra, ser a pausa e o momento.
Conceitos básicos, como: "levante os braços, pague a passagem, ande ao encontro do faro, pare e observe a rua, não há carros e carros e carros, passe e diga bom-dia, dia cinza, arrume a mochila, ela não está olhando pra você, alguém olhou nos teus olhos no sábado, mais olhos do que o necessário, trabalho, trabalho, café e trabalho...". Conceitos de todos os dias, mas que hoje parecem ter uma forma diferente, uma variação, uma nuance leve e quase imperceptível. Só consigo pensar numa reportagem aguda que vi certo dia e a marca desnecessária da frase lo que me duele. Dói ser massa, ser cotidiano, ser assado pelo sol que todo dia nasce e se vai, ser malhado pelos olhos que te olham sem alma e cor, ser situado e porque não sitiado, no canto, ao fundo, à margem, no limite de toda definição certa ou errada, provável ou firmada, não saber se o seu eu é hipótese ou afirmação, falar e falar e no final, saber que falar também é dizer nada e nadar em mar de inverno, revolto, ressacado, carregado. Mesmo assim aspirei o dia da manhã, tirando o jornal do chão à beira da porta, vendo o soldo errante de quatro chutes apontados para o ar na manchete principal, e dizer "adeus" a minha casa que ficará onde está, justamente encima do apartamento 14, ao lado do vizinho 23, sabendo que o elevador social está quebrado, o que só me deixa feliz pois não gosto de ser social e isso é lo que me duele.
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