terça-feira, 12 de julho de 2011

OBTER IMAGEM - Parte I

Um: Achei um conforto na fotografia. Me dei bem porque ela também sabe mentir. Mente melhor do que eu, é mais fria, mais exata. Corta a realidade ao meio sem deixar pistas. Lhe chamo de: experiência, escape, história, vazio, distância, meu-exposto

Dois: Dois tipos de fotografia, a fotografia e a fotografia. O primeiro tipo é feito por qualquer um, que empunha qualquer máquina digital ou analógica e "tira" a foto. E a foto é "tirada" sem pretensão, sem sofrimento ou outro sentimento latente. Serve somente para "sorrir e lembrar". Esse tipo de fotografia é importante, pois é livre de qualquer rótulo, justificativa ou crítica. O segundo tipo de fotografia, é aquela que dói. Essa dor é ambígua, mistura de azedo e doce, mistura de carinho e tapa. É perpetuar mais do que a foto quer dizer, é o pensamento que vai atrás dela, é o que não se vê na imagem, o que não se apresenta como objeto visível. Fotografia-pensamento, fotografia-caminho. Esse tipo de fotografia te faz levitar e quando estás numa altura razoável, te solta, assim, ao chegar ao solo, sentes a realidade.  

Três: "Tira uma foto pra mim?". Essa é a frase que me dá mais pesadelos quando penso em fotografia. Nesse momento não posso pensar em "n" fatores que estruturam meu pensamento fotográfico, não posso desejar entregar-me em velocidade extrema, ligar o meu sensor cognitivo, espacial e existencial. Tenho que desligar-me do que realmente pretendo, silenciar o ruido do meu desejo, apenas tenho que "tirar" a foto. O faço e depois me entrego ao sentimento, "tirei a foto e tirei algo de mim", num sofrimento inútil, sem saída, uma perda de tempo. Não "tiro" fotos, eu obtenho imagens e obter é retirar o ar, o som, o movimento, a continuidade, é fazer que aquilo pare que sempre esteja parado, num plano. Quando obtenho a imagem, me sinto levitar e me sinto espatifar. Obtenho boas imagens, somente quando estou afim. 

Quatro:  O mundo de hoje é tão moderno (os escritos de Bauman me influênciam) que faz prevalecer a técnica sobre o sentido, o conceito, o tempo, a permanência e a existência. Burrice é regular o pensamento à técnica. O contrário é o que deve acontecer. Falta de maturidade é ter 10.000 reais em equipamentos e não dar sentido a imagem. A fotografia foi banalizada porque o mundo se acostumou a confundir o "tirar foto" com o "obter imagem". A fotografia é um direito de todos, ela nasceu para estar em qualquer mão, em qualquer hora e lugar. Então, por causa dessa democratização da imagem um limite deve ser imposto, uma fronteira, uma divisão. 

Cinco: Isso parte do observador, do esforço para a obtenção do diálogo entre a fotografia e o observador. Fotografia é arte e por isso está propensa a ser desvalorizada, rebaixada e ignorada, como se fosse "algo fácil de se fazer". "Obter imagem" custa mais do que se pensa, e só quem está nesse esforço de talhar o olhar, é que sabe quanto é difícil se exprimir diante de uma câmera fotográfica, desejando ser tão real quanto o momento em que está clicando, mas no final se sentir de mentira, como a imagem que obteve. Somente a vida é verdadeira em todos os aspectos. 


ainda tenho que escrever mais... depois.  

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