acordar sem desejo com o resto do gosto do tawny da noite anterior, com o cheiro de quarto fechado, cheiro de caderno rabiscado recentemente, cheiro de ontem. e me parece que foi ontem que vi a paz onde ele se deitava e mantinha os olhos fechados, onde eu cantava ao seu lado, mantendo ereta a minha posição de filho, e desde aquele momento a posição de homem da casa. e o resto não estragou-me: eu estraguei o resto. nasci para derramar sorrisos pelos olhos, deitar em papeis, fotos, telas, projetos, o grande vazio de minha prateleira almática. acostumei-me a acordar com gosto de saudade, com cheiro de ausência, na presença de tudo o que não é cheio. nem adiantou perguntar aos outros: "o que é o vazio pra você?". ensaios de uma tentativa de entendimento essencial. o que mata minha sede não é a água, são as letras de uma bíblia mal lida, de um outro livro que ainda não terminei de ler, de um caderno que tive animo mas não tive tempo 'lógico' para terminá-lo. cada caderno uma história, um nódulo, um lóculo, uma lombada, uma fissura, um espirro, um catarro e um veículo de transporte com ida para a realidade e volta para o sonho (isso mesmo, esta é a ordem). factualmente, definidamente, incessantemente: acordar sem ter os olhos dele, mas com o pensamento de que quando um dia eu crescer em mim, eu possa ter o direito de falar sobre ele sem ódio de minha existência. existo porque vim de um plano escrito pelas mãos daquele que habita acima das nuvens do céu do meu pensamento. estou aqui, acima e abaixo de muitos, sendo a raspa e o conteúdo, com minha dor e com a dor dos outros. olho meu polegar direito, coço minha sobrancelha esquerda, nuca no angulo de quase quarenta e cinco graus, um ônibus não tão lotado nem tão desocupado, a realidade e o sonho num mesmo lugar. chegou o mês da mistura, do repúdio, da estrela dormir, do corvo tocar seu violoncelo, da criança loira de olhos castanhos aumentar de tamanho e adquirir uma barba-arame, trabalhar, andar por si, transitar, escrever de si e de todos, amar os todos-outros, porque amar-se somente é um conceito insuficiente e não existe dentro da forma vida. é claro. sou eu. não tenho a idade que tenho. nasci noutra data quando os teus passos começaram a caminhar para um outro lugar.
agostos.
a-gosto de mim.
agostou-se o meu coração, que parece não fazer parte do meu corpo, como se estivesse em minhas mãos e o único ato que me sobra é entregar ele nas mãos da sombra que me colocou no mundo. o que seria da vida sem sombra? não haveria vida.
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