terça-feira, 30 de agosto de 2011

Suor em pedra

primeira parte 

16:11 (um dia antes)

é impossível. livrar-me dessa realidade, de amontoar as coisas, de viver procurando mais bagagem para a mente, o corpo, minha pele-olho. consciência e espacialidade. onde estou? estou e sou eu o espaço que habito. não existo sem o espaço que intervenho. complexidade e intervenção. intervenho no espaço meu, no meu nicho de obra, abrindo janelas e portas para minha centralidade abandonada, onde parece que despejo os desejos do que vejo com a pele. esses desejos que podem ser coisas, lugares, estados, palavras e as coisas (querido foucault) são tão pesadas como os móveis da casa da vovó. 


Segunda Parte


11:21 (durante o dia)


é hoje que eu penso e que sinto no que penso, corte da navalha: realidade. três projetos me rondam e todos eles sou eu. um maço novamente, mais um trago longo e em silêncio, mais uma captura da imagem corrida, da inteligência dos movimentos, do torpor das manhãs ressurretas com dores na têmpora. dizem que eu finjo. finjo estar bem e estar mal, finjo projetar e reunir-me para os negócios, finjo ser livre para o amor, para distribuir abraços feito politico sem partido intelectual, finjo ser eu para não sê-lo em outro lugar. dizem tanto e quase acredito neles. aborreço-me vendo que faço parte do país que nasci, da pátria que hoje choro com revolta, deste mundo que abomino mas não consigo escapar pois eu mesmo me tornei mundo e não consigo existir além da estratosfera. é ai que começo suar em formato de pedra, rolando na minha pele-terra, amassando meus olhos-pele, cegando a sensação de vida. pele suando é sinal que o organismo chora. 

Terceira Parte

10:45 (depois do dia)

eu sou a mentira que meus professores reverberam, fazendo de nós alunos, uns bestas. eu, o "sou", o sapato, o sapato velho que eles gostam de calçar e se sentem cômodos. sou a prerrogativa. sou a antecipação da pergunta que ela quer fazer. sou o desnível do terreno que ele terá que construir. sou o cenário, sem pedagogia, com a liturgia da realidade. a mistura da sensação de ser obtuso. desviar-me-ei do outro mim, entrarei pelo caminho do espelho, não para ver-me, mas para ser-me. preciso pertencer a mim mesmo. já vivi demais, os idosos o sabem, sou quase um deles, com uma aparência mais fingida, com uma testa menos enrugada e uma voz menos vaga. eu sou o suor que escorre em pedras e cria o peso que me afunda neste mar implacável de risonhos afazeres, mentiras disfarçadas de sonhos. 

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