sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Mula Moderna

nunca é tão tarde para se fechar o arquivo pensando que mais uma vez não se conseguiu terminar o projeto e o cansaço, esperando à porta para levar esse espectro humano, sacrificado, para passear num sono que não trás descanso, trás somente um gap obtuso, uma saliência da realidade, multiplicada pela agenda atordoadora. e vendo este meu amigo depenado pela tela, pelo papel, e pelo levantamento incompleto dos problemas, sendo eles a acústica de uma sala normal, o texto do Le-Duc, um morro em algum lugar do interior, a pista de skate rejeitada, as pinturas numa favela desocupada de esperança, vendo este mesmo meu amigo, retirar-se da mesa com sacrifício, sendo ele tolo em falar "sim" para os problemas, não digo que sinto pena, sinto sim uma dó para sua criatividade cinza, que já não é tão colorida como nos primórdios de sua inteligência. a agenda, o dinheiro, a mente, esse rio que passa, como se fosse saramago e levantado do chão uma verdade sobre a discorrência e a discrepância como ele, meu amigo, passa os dia, sem vê-los precisamente passar, por falta de tempo. vendo ele o leito do familiar, a falta de respiração, a falta de conclusão, seja nos relacionamentos, seja nos projetos, seja nos conselhos que um dia soube dar, e se estraga tomando a sangria que o faz girar, deitado, incapacitado de dizer "agora não posso", pois nem ele sabe o que pode, e o que deve, o que resiste, o que apreende em si o que faz os outros apreenderem. mula moderna. carrega o vício de não recusar o aprendizado ao velho estilo sofra e sorria, um escravo disfarçado, que não consegue escrever meia dúzia de palavras pontuadas corretamente e pede para que eu, seu fiel e mais lógico amigo, fale por ele, em letras de rascunho. mandei-o à merda. ele já está por lá, nadando no lixão do transporte, suando entre outros suados, lutando entre os enlutados, chorando entre os que já não tem lágrimas para chorar. mula. besta. carrega mais não solta essa bagagem matutina, vespertina e noturna. não me peças para escrever por ti, mesmo quando já o fiz. 


eurico louzada. 

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