sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Entendo (parte I)

entendo. fuma. isso. fuma. faz bem pra você esquecer algo que você nem lembra (saramaguiano ou saramagoiano ou outra coisa que expresse a tentativa de usar algum raciocínio do velho tio saramago). mas claro, idiota, fuma. faz bem pra você aliviar o que você pouco possui, que é essa mistura de imagens aguadas por causa de sua vista embaçada com o que realmente acontece ao redor desse teu corpo franzino. dor no reto, de reto, do resto que você comeu. esôfago que arde. as amígdalas que amarelam mesmo sem você saber se elas são mesmo amarelas, mas você já sabe que o amarelo pálido é doentio, assim como toda cor pálida. os tornozelos que parecem estar sobrecarregados e expõem os tendões rijos, quase ossos, nervos debaixo da fina cama de pele. ainda assim fraquejas e procuras andar mais, mesmo sem saber o caminho. entendo, idiota. desgraça, sabes que a diarreia que está saindo entre as pernas pertence ao teu cansaço de ser muitos? essa diarreia é tua e é culpa tua esse liquido escuro cheirando a pecado, chegando ao chão já como rastro, e assim todos podem enxergar como estás podre, magro, e as tuas recordações escorrem ou são expulsas pela boca, bílis do que recentemente fizestes. vale. estas bem ou achas que estas bem? olha esses teus braços de grilo, já fostes tão forte, que conseguias carregar qualquer pensamento, qualquer conceito e agora mal consegues ler Tolstoi, porque não pode ser tão profundo o texto e mal assistes um filme sobre melancolia e o planeta que voa em direção à terra que chegas ao leito em lágrimas, e transformas o quarto numa piscina, agora escorrendo pelos olhos diamantes líquidos que secam e nunca voltam para o corpo de onde saíram a não ser que as bebas. mas nem isso és capaz de fazer. exaltas-te de ter uma visão melhor ou no minimo diferente sobre o mundo. mal consegues viver sem utilizar os teus outros olhos postiços, vives de lentes, lentes que fabricaram, já és defeituoso, e a visão que tens nunca poderá ser doada, pois ela não é tua, pertence aos outros. entendo. por isso tropeças. tropeças mas não cuidas de não machucar-te, não te defendes do chão com as mãos, ou com giro do corpo para uma melhor queda. não, não tem nem forças para intervi a queda, mas colocas a mão no peito e tens que reforçar o teu domínio sobre o pulmão bifurcado, independente, que já da os sinais de preguiça, filtro estragado, hemoptise. sangra o nariz, saltam as jugulares, arfa...

0 comentários:

Postar um comentário