ouvindo siga do joão gilberto e ver que ele nesse compasso lento de repreensão, "das estradas e do tempo, cansei...", seguro, com sua voz de profundeza, de porão, quase tão intimista quanto um sutiã ou uma cueca, ele canta e discorre na tarde uma áurea necessária para que eu me sinta necessário, hoje, agora, neste momento em que escrevo com os olhos presos nesta tela iluminada, sem olhar no teclado, revezando letras com os goles curtos de água e do lado do computador, o caderno escrito quadro, de milão, com valor de dois euros e meio, mas que não é meu e nunca será, assim como qualquer outro texto, assim como a estação tiburtina, assim como o palácio de cristal, o douro, a sé de évora, o pedaço tímido de terra na praça almeida prado, nem algum paragrafo qualquer do rayuela do cortázar, nem a imagem que obtive de ti, sentada, repousada, com olhos grandes encaixados num rosto esguio, que apesar de caracóis vivos atrapalhando a fronte era um zoológico barulhento de ideias e sorrisos que pareciam fogos de artificio de final de ano, ou um jardim pequeno de alguma casa de santarém, recluído de maldade e assombração, mas ao mesmo tempo uma sopa de maldade e insulto, pois alta, ela olhava por cima de ombros curtos e resumi que é insolente em não dar o lábio a torcer a um outro homem qualquer de braços curtos e coração fundo, tronco largo e cegueira parcial, pois só sabe olhar pra trás e sendo assim, ainda toca gilberto "e sem ter razão me fez chorar de dor..." mas se escuta como se fosse "tu quieres volver y no te veo mas" na voz da sarah brightman, dentro de uma capela, escura e vitrais mais foscos que o normal
louzada
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