Sendo assim, é de mal uso encontrar um nome para um novo sujeito, já que o novo sujeito não existe, mas como se fosse uma experiência continental ao centro da alma, há uma necessidade de achar um nome suspenso ou largado nos recôncavos da alma. Então esbarrei com nomes já conhecidos para falar sobre coisas que se renovam, esses incontáveis assuntos, eu poderia até pegar uma lista de nomes interessantes, para já logo sanar essa vontade epopeica de se(r) ter um nome para quem escreverá ou o que será escrito, mesmo que difusamente, mas logo aparecerá e aparecerá como mais uma das incontáveis facetas que sinto surgir do ventre, filhos dos meus sonhos, das minhas lembranças fraturadas, fracionadas, como devem ser.
Cada criatura surge da soma de experiências e pessoas que me atingem e permeiam em mim, seja no sentido correto do relacionamento ou no sentido prejudicial da entrega a alguém. Seres humanos produzem a mistura mágica de cicatrizes, sorrisos, caminhadas, cartas e conversas murmuradas pelos olhos. Se produz esse licor mutante de sabor indescritível, bebido não em copos mas nas próprias mãos, deixando alguma parte escorrer, inundar os pequenos vales, fendas, a ruga da idade e atividade, do trabalho braçal, da vivença. Esse liquido hora cremoso, denso, rubi, escarlate, hora suave, claro, é o que gera em mim a necessidade de escrever utilizando nomes que não conheço, nem vi e esperar nascer a semente que me fará estudar um personagem alheio, que no fundo sou eu em reflexo e reflexão. E então escrever e escrever em músicas, teatros, diálogos internos e rascunhos de prédios e casas, nas sombras de uma árvore plantada em favela ou parque, em linhas curvas de vento e pontos enfiados no papel pela ponta de uma caneta e invadir para quem se escreve, mesmo que não se leia o texto, mas em vontade, desejo, como se o texto fosse o ar que na hora é respirado, enquanto os olhos correm em letras e desenhos e traçam um trajeto a um destino indefinido nos céus da alma, em meio a névoa do ontem e o nascimento do sol do amanhã. E se quem lê sentisse o desejo do personagem nascido, posto em pé, ereto em sua responsabilidade de emprestar sua identidade turva, se ouvisse o que o personagem fala ou faz, ou respira ou come, erra e acerta, ou nem precisa sentir, mas quem observasse, com seus próprios olhos que existe tanto personagem para que vivamos e entreguemos aos outros aos pulos ou aos arrastos, nascerão então muitos mais filhos postiços e encarnados, outros que vão entregar a coleção de imagens da alma coletiva que tenho, somada em outros textos que não são meus, em outras coisas que não são só minhas, mas que aos poucos me pertencem e pertencem a você, mesmo que não percebamos isso.
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