quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Os intervalos e respiros

Com certeza não sou um pianista bom. No ano de 2002 estudei violão erudito na ULM (Universidade Livre de Música) e peguei um desgosto enorme pela partitura, essa leitura musical que procura encaminhar os modos de tocar o que autor/compositor deseja da forma correta. O piano da casa da vó materna era algo imperioso, tocava lá de vez em quando, pra tirar uma coisa ou outra. Música era algo mais divertido do que obrigatório.

O violão foi minha âncora. Seja porque me ative tanto à mente das meninas que na adolescência eu me apaixonava ou as músicas cristãs que compunha em acordes básicos pra registrar minha culpa e dar de presente para amigos, fazer encarte na mão, tudo na mão e pela mão, haja mão, haja coração na mão, coração fraco na mão. Gravava em fitas cassetes, porque eu precisava sentir, ler, entender e me ouvir depois, ver a coisa acontecer. Depois comecei a gravar naqueles aparelhos de MP3, fazer CD, tudo de uma maneira bem simples, meio tosca, meio minha demais, sem quase nenhuma pretensão. Fiquei no limbo de um trabalho amador que gostava de fazer, com inúmeros erros, mas com intensidade. 

Voltei a estudar piano com "força" em dezembro de 2016. Fui convidado pra participar da banda Mokassin, entrei com o teclado, sintetizadores, samplers, backing, etc. Essa força do estudo também se juntou com a raiva por não saber bem algumas coisas relacionadas ao mundo da música. Maldita a hora que odiei estudar partitura. O piano me abria um panorama que a guitarra ou o baixo elétrico não me abriam. Então me forcei a improvisar como também fazia com o violão ou com a guitarra, sem ver muito o produto redondo no final, mas mesmo assim registrando-o. Isso só foi possível por conta dos intervalos no local onde trabalho, a ONG Instituto Hatus, onde há um velho piano lichtner, um bocado desafinado, mas funcionando. 

Eis aqui as primeiras gravações que aos poucos irei registrando e colocando no mundo, porque se fico apenas guardando esse material também tosco, mas visceral, mal feito, mas real, pra mim é a coisa mais irracional possível. Não são coisas admiráveis, são ensaios de improvisação, descontos da felicidade e da raiva, são intervalos puramente necessários pra deixar as mãos livres pra que depois eu mesmo possa me ver trabalhando com outras coisas. Um modo de tirar correntes que já foram postas diante da realidade de um mundo depressa e com um senso de dor interna que fica difícil explicar, bem difícil, então é mais fácil dizer pela música. 

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

a fumaça e a grande palavra

"você deveria parar de fumar". uma, duas, três, quatro vezes. é lógico que as pessoas vão pensar dessa maneira. é óbvio que fumar causa câncer, mata, perturba, desaba o fôlego. desde as imagens nas costas dos maços, boxes, o tal sofrimento, gangrena, misture isso ao coquetel dessa depressão à vácuo que fica enquanto se espera o farol abrir para os pedestres e um ônibus passa correndo pela via, deixando aquele espaço de lembrança cravado num silêncio rápido, com um intervalo que nem parece uma pausa enquanto a mente trabalha no processamento da imagem do sexo entre eu-você-ela e não só no sexo, mas no sexto sentido que é o afeto e o cuidado. cigarro não é cuidado, mal feito, sem exemplo. é que eu tenho esperado demais. o quê? nada. "você deveria, ao menos, tentar parar". parar. sossega, pra quê essa pressa? acalma. novamente venho escrever esses termos que procuram tranquilizar a alma. calma tem alma no meio. que meio? a metade de mim gostaria de ser tão saudável até pra se tornar eterno, mas eternidade, tá difícil acreditar nessa síncope. na verdade é melhor pra eles, sempre é melhor pra eles que você pare de fumar. é um vício bem popularizado e legal, em todos os sentidos, por conta disso, um pouco mais odiado comumente. mas é só um cigarro. não é só um cigarro, é o cheiro da fumaça, são os reais gastos que não voltam, desperdício. o cigarro apaga o dinheiro. o ocê acha que eu não sei disso? "mas é melhor pra você". pra mim, pode até ser mesmo, pensando bem, deve ser bem melhor, olha só a saúde física em seu estado de sítio. a saúde psicológica não é também uma saúde física? cê tá é falando merda. procura também não falar tanto palavrão que isso ofende o exemplo. crianças vão aprender contigo a fumar, a ser torpe, desviado. testemunho. não é isso o que se quer para o mundo. olha pra tua família, eles não são assim, quem  é assim? quem sou eu desse jeito? "pensa que estamos querendo te ajudar". de boa vontade. é verdade. eu vejo. é muito cuidado, percebo isso também, é que eu não sei agradecer essa bondade incomensurável que é despejada de enormes caçambas que são essas tuas mãos. eu deveria contar menos de mim, eu deveria conter mais de mim e não ficar compartilhando o tanto que reservo debaixo do solo da alma, mas quando suprimo isso expelindo as fumaças desvio mais uma criança de um futuro promissor, porque os pais vão ver que é mais um terrorista das morais estabelecidas por um estado de direito bem regulamentado. você é a instituição. representa. ok. cala boca que eu estou falando. respeito. e nisso, talvez, o batismo, as águas que já ficaram pra trás e o nascimento, também, serviram para mais um título de peso, do que fui preparado pra ser mas não consegui. é que eu confundo as coisas. não é só isso. tem mais. mas não é mais informação relevante, é o chão que se abre, é a multidão que caminha muito rápido, é o mito do prazer no trabalho. muito prazer, meu nome é cansaço. "assim as pessoas vão pensar algo que não é verdade sobre você". já acontece isso, misericórdia, pelamor, xita matrica (o esforço de inventar meu palavrão oculto desde 2006), é que sinto tanto e tanto muito na flor dessa pele escamada e ressecada em micro regiões imperceptíveis, que se escorre em suor nos piores momentos e se mantem velha por conta das cinzas que se apegam a esses pelos longos. mas tudo bem. se insere nessa minha vida furada e tenta não vazar. mas não vem com esse dedo imundo falar o que eu deveria saber, porque eu sei o quanto devo me cuidar para não desmoronar. "não se expõem". onde vou ser eu? onde vou falar-me e ouvir-me, se já no íntimo falo demais mas não me escuto. é um reforço. por favor, alguém conecta o retorno? mas há sempre essa mão dura que acarícia. não é a falta de percepção, é a falta de análise. se quer um desenvolvimento rápido do que perturbar, para que isso não perturbe mais, mas não confunde, isso mesmo "não confunde que não é bem por aí". é por onde? por onde você sempre quer? é o caminho discursivo onde não é tão fácil ouvir os gestos, porque talvez seja isso que tem que acontecer, sendo que sempre me coloco no papel perturbador do outro lado. não sempre. erro demais. caguei. xita matrica. perdição. mas é uma tentativa que pode sim ser considerada como uma resolução completa mas hei de ouvir que o cigarro me matou se eu não parar e fico até imaginando se por ventura der uma pausa nesse vício e por ventura cair novamente, como o ciclo pecaminoso da vida, haverá sempre outra lança encaminhada, outra corda que serviria de guia mas só faz o seu papel de forca e não de força. "você não entendeu o que eu disse". nunca entendi porque também não entendo você. só que não suporto o poder exercido por você sobre mim, dentro ou fora de qualquer instituição, apenas poderíamos relembrar as luzes que o respeito uma vez lançou, quando se apresenta o fator de ser apenas pessoas que não se conhecem. mas tudo é poder. tudo é mandato. agora não posso descer pra fumar um cigarro. agora não posso falar as grandes palavras que pra mim tem mais peso sonoro do que significado. eu era bom. éramos bons. somos bons, calados e se respirar. 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

assobio

por mais que se façam operetas e sonatas, concertos truncados com semicolcheias e fusas seguindo quase a benção iracunda do mateo carcassi sendo tocada pelo violeiro erudito que com treze anos  mandou o regente da carreata dos violões à merda, nada, literalmente nada, substituirá o pequeno grande ato de assobiar duas, quando muito três notas pela manhã, ao acordar.

era quase um alarme e se repetiu por três vezes seguidas, algo mítico, como o galo que denuncia o apóstolo Pedro da sua traição ou mais comum, como bater três vezes na porta para avisar que chegamos, coisa que ela nunca fez, porque geralmente deixava a porta aberta já sabendo que ela viria, pois ela mesmo me avisava com antecedência e nunca bateu na porta de surpresa.

acordava com um espetacular bom humor quando sentia o cheiro de café vindo da cozinha apertada, passando pela sala, um espaço hibrido,  misto de ateliê com biblioteca, com uma poltrona meio rasgada e bambolente, celuloses mil pairando sem tempo no chão, na mesa, nas estantes, vazias ou rabiscadas, entornadas, amassadas e amansadas para serem revisadas em algum texto linguagem no futuro, mosaico de verbos e conjugações. após sorver o café ainda na cama, levantava com o torço nu, fazia carinho nos papéis e ia ao banheiro. Nesta hora assobiava, ao se desfazer dos líquidos interiores e depois começar a higiene, que demorava, culminando numa decoração exata das bochechas, dos lábios, dos olhos, se livrando de uma fez por todas a aparência que temos todos em comum ao despertar de uma noite de sono onde os corpos se assaltam em ríspidos encontros de necessidade e cheiros de vontade.

não fazia nenhum mal saber que ela se despediria em um contato rápido com as minhas mãos, um aperto na cintura e um olhar de canto, fechando a porta, deixando balançar o chaveiro imenso  pendurado na porta. o mal era saber que o assobio ainda iria perdurar pelo banheiro, depois pela sala, sem ser abafado, iria penetrar meu quarto e enquanto me trocasse de roupa e resolvesse mergulhar novamente dentro do revoltoso mar sólido do mundo das artes, ele iria estar lá, cíclico, até me fazer sair do apartamento, descer as escadas e ir distrair os olhos e o bolso numa cafeteria imunda onde o mesmo homem velho tomava uns "paratudo" até confundir democracia com liberdade e amor com ideologia. depois de ouvir o bêbado declarar algumas músicas do meio-centro, iria comprar granola e leite, itens que mantem o costume de enganar, ludibriar e tiram o meu apetite receoso pois tem a combinação precisa de saúde com custo-benefício. faço disso meu almoço, meu lanche da tarde, minha janta, minha ceia e já beirando a correnteza da madrugada, sinto vontade de gorfar esses grãos já triturados, brancos e inchados, mas me perco num e-mail, numa foto da queiroz, numa nota do coetzee, numa ilustração do pê augusto e novamente, quando decido lavar os dentes para sossegar os olhos na cama olhando as estrelas que fingem existir no teto, sou admoestado pelo silvo lento que ela fez questão de ecoar pela manhã.

nessa hora, me levanto com pressa e de cuecas sento em frente a escrivaninha, boto papel limpo, pego caneta, pego lápis de cor, um pincel, aquelas tintas velhas que estão quase secas. não sei o que fazer, olho o violão, pego ele também. fico com tudo disposto pra trabalhar num real propósito de tirar aquele mantra que reverbera no recinto. desisto de tudo e lembro que posso substituir a melodia por outra e me condeno por não ter pensado nisso antes. o concerto de paris do keith, o piano, aquele eco do hall, subtraio, quando percebo que são duas e depois três notas, devidamente em sequência, alinhadas no seu tempo, tempo esse que desconheço o compasso por conta da minha imbecilidade se tratando de partituras ou a tal música escrita. as mesmas notas que saíram dessa fresta dos lábios dela, sem a intenção de me afetarem, porque ela não faria isso com intenção, ela nem conhece keith, ela conhece e gosta de outras coisas, gosta da popularidade-indie, mas precisamente reproduz um ínfimo do concerto de paris e na escura madrugada de verão chuvoso, sem ela na cama, sem ela nas paredes, sem ela no papel, na escuta, no corpo, sobra o que ela fez pra me desconcertar e me deixar num estado puro de inanição. maravilhoso.

mando uma mensagem pra ela. "não vai dar mais". ela não responde, visualiza, não responde. percebo que agi como um trouxa. isso. ela responde pela manhã, quando as olheiras já estão bem fundas, que se transformaram nos próprios olhos e surgiram dois textos incompletos que lidos de trás pra frente fazem mais sentido que os comerciais da tevê. jogo fora os textos, escuto mais uma vez o concerto de paris, escovo os dentes e deito na cama aliviado de ter perdido a chance de ficar quieto, pensando que era problema unicamente meu todo aquele rebuliço e que a ausência é a permanência do vazio.

ela toca a porta pontualmente, dessa vez a porta está trancada. um banho me deu ar de novo, apesar da barba continuar sendo um resquício do desleixo e da preguiça, nascendo como dá e como pode, falha, mas constante. o dia após o outro dia, a tarde após a outra tarde. chove lá fora, não chuva pesada, chuva perene. ela deixa o guarda-chuva no canto do hall, repousa uma mala de mão, pequena, marrom, de couro, no chão, dá dois passos e me ataca os ouvidos com o batom, me ataca a cintura com a cintura, me ataca a respiração com os cabelos e com as mãos amarra o meu pescoço nesse nó que somente os humanos com desejos infaláveis conseguem efetuar. ela se muda, me muda, fica do meu lado e faz questão de uma vez ou outra assobiar o mantra, mas dessa vez olhando pra mim, me dizendo com os olhos outras coisas e eu escuto o que esse assobio quer dizer. me atrevo a perder o olhar e a sorrir para as paredes, para a pia da cozinha, para os azulejos do banheiro, para as celuloses perdidas da sala, pois sei que ela agora vive nesta mesma casa.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Postura

há uma postura que tem que ser tomada, seja ela com o corpo já meio desmantelado e habituado às geringonças que facilitam a vida, seja pela consciência que muitas vezes me parece material, mas na verdade só existe no campo das ideias. vejam o exemplo do ruy: não enxerga, não vê, ele nem mais sente tanto o absurdo que faz. ele é aquele suspirinho constante, quase um zumbido, um silvo, fresta de existência que sem querer entrou e se satisfez com a capacidade que tenho de me submeter às realidades mas bem-feitas desse meu querer existir. não consigo tomar uma postura diante dele, porque a mesma me é roubada, usurpada quando ele pega as coisas e sai, mentindo pra onde vai e sendo só verdadeiro quando aparece arranhado nas narinas, sujo no peito, cavado nas mãos, escorregando a fronte em pedregulhos no lençol que deixou na cama e nem colocou pra lavar da outra vez, porque a sujeira já tá tão impregnada que ele fede a si mesmo e não sei se é um cheiro de vivência ou de morte que se assombra.

por vezes desejo o descanso, que sei que só será possível se eu fugir dessa presença onipresente que carrega nesse novo-tão-antigo-nome. me dá raiva sentir que ele se espelha na realidade que mentiu pra si me projetando nela, me fazendo ser maior que o necessário, me fazendo não ser eu pra ele e lá, de longe, fica olhando como se quisesse me imitar, mas não consegue, porque no íntimo ele sabe que esse ali não sou, não, é um "eu" que ele construiu para se projetar com mais conforto e se desafiar, mas não se desafiar tanto, somente o necessário para manter o nível da doçura áspera, da cavidade rasa, de eloquência fúnebre na especialidade comum, da moda rara, do espelho. ele gosta de se ver no esforço de se projetar numa mentira, nesse boneco de farofa e água morna, nesses pedaços de fragmentos oblíquos que somente tem sentido real se visto do seu ponto de vista, que é sempre o certo, o dele, o certo, o certo-ele. outro método de descansar é me apagar, ficar sem isso que chama e gastam por ai nas tomadas de decisão, deixar de ter luz, para deixar ele sozinho com essa projeção que com o tempo será mais um punhado de recordações distorcidas. desse modo, coitado, doente como se diz ser, verá que quem se foi era o real e que realmente - é muito orgulho - só sobrou esse espelho quebrado apontando pra baixo, para a queda.

mas ruy é apenas um exemplo do que se pode ser dentro da convivência e conivência do existir entre humanos. por isso a postura da morte precipitada, da recordação mal-dita, do presépio da morte, do calçado sem solo, das mãos sem dedos e da visão sem olhos. soma-se também ao relato a necessidade de fazer de um exemplo algo minimamente exato para que pessoalmente se aprenda a lição de que mesmo tendo a postura correta, nunca se saberá se a outra postura seria menos pior ou melhor, já que ela nunca foi tomada e não há uma diminuição de danos, há somente o rastro demarcado, essa trilha de lembrança espalhada pelo campo da vivência que mostra conscientemente que certos caminhos não levaram ao fim, eles são o próprio fim.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

um homem chamado Jesus

Soube no dia 25 de Maio de 2016, sobre o caso de uma menina que foi estuprada por 33 homens. (pausa)

Li muita coisa na internet, principalmente no facebook. Fui observando as reações de pessoas próximas: mulheres e homens, principalmente as mulheres, não com o objetivo de análise profunda, mas procurando algo, sei lá se consolo, esperança. Cheguei a escrever um texto que surgiu como uma síntese, procurando desta maneira, pela escrita, procurar entender o que acontecia, utilizando a prosa como uma faísca mínima de empatia. 

Sei que no limbo das publicações virtuais, pessoas curtem, aprovam ou rejeitam. Tenho experimentado essa tal "avaliação pública" de um grupo restrito de pessoas, pessoas do meu círculo que por muitas vezes pensam de modo semelhante e que também pensam diferente. Como tenho um interesse pela literatura, que não é disciplinado, mas sim esporádico, sou atacado também por esses ímpetos de "aprofundamento momentâneo" e já me vejo emaranhado. Sou submetido primeiro ao meu julgamento, depois ao julgamento dos outros que imprescindivelmente me afetam, porque permito que me afetem. É uma maneira de diálogo, que com o tempo foi se apresentando de uma maneira não tão saudável por causa de mim, o eu que eu mesmo possuo. 

Me deparei então, na enxurrada de informações digitais com uma simples frase que uma pessoa, mulher, que considero muito e agradeço aos céus por ter conhecido, que tem me ajudado a desconstruir muita coisa que eram pilares e certezas. Gabita (Gabriela Amorozo) escreveu em sua time line: ".existe todo um universo político dentro de cada umbigo masculino." Esta simples frase, escrita assim mesmo, entre pontos, me fez refletir ainda mais sobre o assunto. Pensei em mim e no meu umbigo. Umbigo homem, masculino, na minha necessidade de autoaprovação assim como aprovação dos outros e na decorrente vitimização que exerço, como que puxando algo pra meu lado sempre e que na maioria dos casos acaba voltando a importância das coisas para meu umbigo, apenas. 

Como coincidência, Klébão (Kléber Silva), homem, amigo, que a cada dia que passa se mantem firme na consternação, me indica contravenções e alimenta meu pensamento critico, me chamou pra conversar e assim, numa troca de áudios, compartilhamos o que nós homens poderíamos fazer mediante a realidade de um fato: o poder do homem sobre a mulher. Ele me alertou sobre o local de fala, assunto que já tinha aparecido anteriormente diversas vezes em conversas com a Gabi e debatemos sobre como o gênero masculino, tão enraizado, gerava problemáticas na hora de escrever seja um simples texto ou "literatura". Então surgiu, enquanto trabalhava exatamente num texto, o pensamento perturbador: Jesus, o filho de Deus, que veio ao mundo como homem.

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Sou cristão, cristão homem, criado por uma família matriarcal. Neto de uma avó que gerou oito filhas mulheres e adotou mais cinco, três mulheres e dois homens. Esta é a minha família por parte de mãe, que por proximidades geográficas me relaciono dia após dia, mais do que com a família do meu pai. Desta mesma família, cinco tias se casaram e em um dos casamentos o homem abandonou minha tia por causa de problemas de saúde que ela tinha e tem até hoje. A maioria de minhas tias são solteiras e "bem resolvidas" (como dizem por aí...como se houvesse algo por resolver...). Meu pai faleceu quando eu tinha seis anos e por isso posso concluir que minha educação, majoritariamente, foi através dessas mulheres. Nesse contexto de família cristã, o machismo ainda está muito entranhado. Deveria ser o contrário, mas não. Desde atitudes corriqueiras, disciplinares, até mesmo preconceituosas, minha família possui muitas falhas, mas temos com o tempo aprendido a externalizar e não guardar o que nos incomoda, a corrigir hábitos e costumes. É um processo doloroso mas que seu resultado é a felicidade  ser construída em conjunto. 

Minha mãe, missionária e voluntária, muitas vezes discutiu com líderes homens cristãos que claramente estavam exercendo  um poder que não era "divino", era o poder machista. Numa delas vi um "pastor" desrespeitar minha mãe de uma maneira tão odiosa, pelo esquema de organização dela, que é, entre a gente, impecável, coisa que eu não tenho. Eu fiquei consternado e parti na defesa de minha mãe, mas ela não precisava. Ela me impediu de falar e lacrou um sarrafo verborrágico que deixou o pastor português numa pindaíba intelectual. Deu orgulho. Mas o cara apenas exerceu seu poder acima de minha mãe, afinal ele era o presidente de uma associação onde eramos voluntários. Depois, em casa, a vi se retirar para seu quarto e chorar. Ela sofreu calada. Tive que interromper este texto  pra conversar com a minha mãe, que está longe, no Ceará, pra pedir perdão. Perdão porque foram homens, homens como eu, que dentro do seu ambiente de trabalho que há mais de vinte e sete anos é o voluntariado, missões, iniciativas de cuidado para pessoas em vulnerabilidade social, tem diminuído o trabalho de minha mãe, tem afastado ela de lideranças porque ela é mulher

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Dias atrás, terminei de ler o livrinho (porque ele é pequeneninho mesmo) da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, chamado "Sejamos todos Feministas", que é uma adaptação de sua palestra para o TEDxEuston. Foi uma dica da Gabita. Depois que finalizei a leitura, procurei o vídeo no youtube (clica aqui para o link do vídeo) que veio com a legenda completa e confesso que foi ainda mais impactante. Hoje assisti esse vídeo novamente e como está circulando com força nas redes sociais as fotos de perfil que dizem "Sou contra a cultura do estupro", uma frase da Ngozi veio a calhar: "a cultura não faz os povos, os povos fazem a cultura". Cometi um erro ao dizer num embate virtual que o estupro não é uma cultura, porque eu tenho um carinho exacerbado com a palavra "cultura", mas quando me deparei com essa afirmação de que "os povos fazem a cultura", me dei conta que sim, é uma completa verdade. O povo, do qual faço parte, trás em sua cultura o estupro, que é o poder exercido do homem sobre a mulher. Culturalmente encontramos traços tão enraizados desse poder, que a expressão "seja homem" que até pouco tempo atrás eu usava em certas situações, significa "ser valente, ser destemido", é uma maneira de perpetuar o patriarcado, de mostrar, manifestar o poder. 

A palavra "poder" significa como verbo transitivo direto, "ter a faculdade ou possibilidade de; ter força bastante para" ou como verbo intransitivo: "ter força física ou moral" ou até como intransitivo direto: "ter força, robustez, aguentar, suportar". Como homem, à partir do dia que nasci, já tenho esse traço cultural do poder, já sou uma força opressora. Não quero entrar aqui na luta de classes, que também me interessa, mas na questão de luta de gêneros, isto é real. Os homens, possuem egos tão frágeis que se ofendem mais quando uma mulher diz essa verdade pra gente do que quando um outro homem diz isso. Qualquer coisa, apontamento, crítica, pra não dizer opinião, que vem de uma mulher, tem o poder de deixar os homens realmente putos, descarrilhados, porque o homem é frágil e essa coisa que vendem nesse mercado masculino das certezas de que homem é forte, estoico, é uma mentira tamanha. Sabe porque? Porque ao tratar a mulher como inferior ao homem, o homem automaticamente procura dizer à si mesmo que ele é mais forte, o que é uma hipocrisia. Como Ngozi afirma, os homens são na maioria das vezes ser mais fortes fisicamente que as mulheres (há muitas ressalvas nisso, também, já que os homens costumam morrer primeiro), é um aspecto biológico, mas no campo do pensamento, nunca, mulheres e homens tem a mesma capacidade. 

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Retomei uma leitura de um livro que estava parado na estante. Chama-se "Hipocrisia: problemas morais e outros vícios" do autor James Spiegel, professor de Filosofia e Religião. Me deparei com um embasamento interessante, com pontos de vista cristãos nada convencionais ou conservadores (por mais contraditório que isso possa parecer). Numa de suas tanta citações sobre o assunto, no capítulo quatro do livro que tem como sub-título "Fraqueza Moral" surge um texto do Públio Ovídio Naso, poeta romano que viveu no mesmo período histórico que Jesus "Uma compulsão desconhecida toma conta de mim bem lentamente. Impelido dessa forma, a, por meio da razão ou da paixão, ver e aprovar o que me dá maior prazer: fazer o mal". É interessante que este trecho foi escrito por um homem que admitiu, com a força da poesia, que usa da razão e da paixão, coisas que são opostas entre si, polaridades, para aprovar "fazer o mal" e pior, que isso dá prazer. Isto é uma síntese do pensamento masculino, até porque os homens, na história, sempre tiveram o protagonismo em tudo e eram tidos como os pensadores e intelectuais, donos dos louros, progressos e etc (end of thinking capacity). A mulher era relegada a sua "função" e até hoje essa cultura do poder, não só físico, mas o poder artificial intelectual e moral, é dos homens por conta que eles tomam o espaço, ocupam, folgados, não permitindo que a mulher tenha voz, o que é uma merda. 


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Jesus veio ao mundo. Ele veio, destituiu seu espaço no lugar da trindade e encarnou, se fez carne, como humano e homem. Isto poderia ser usado da pior maneira pra mostrar por análises erráticas nos meios clérigos que o homem tem uma representatividade maior diante da mulher, afinal Jesus veio como homem e não como mulher. Não compactuo com essa linha de raciocínio. Me levo a pensar que Jesus veio como humano-homem exatamente pra quebrar preconceitos dentro do sistema patriarcal e machista, prática cultural dentro da sociedade em que ele viveu e que nós vivemos até hoje. 

Jesus nasceu de uma virgem, um milagre. Os católicos veneram com razão a virgem Maria, mas existe um ponto: quer dizer que Jesus veio para este mundo através de uma mulher e não através de um homem. Então, o filho do Deus todo-poderoso, o Deus boladão, nasce de um útero, órgão que, pra reforçar, é um órgão feminino. 

Nos quatro evangelhos vemos a presença de sua mãe Maria, que aparece mais nos textos do que o seu pai terráqueo, José. Mas é claro! Veja todo o contexto, porque se teriam mais registros do pai Zé do que da mãe Mary? Talvez, olhe lá, pra já dividir o antigo testamento do novo testamento numa quebra de tradições culturais. O anjo apareceu primeiro para a Mary e só depois que foi visitar o Zé (Mateus 1:18-20) e assim o novo testamento começa com Deus mandando o carteiro angelical falar com uma mulher e não com um homem, isso é uma porrada no conservadorismo, nas tradições culturais-religiosas. Pumba!

Imagina o Zé, todo perdidão, talvez até se vitimizando, ia casar com a Mary mas ela já estava grávida! Imagine você, homem, no papel do Zé. "Traição! Adultério!", crimes que na época se resolviam com uma chuva de pedras, na mulher, é claro, uma tradição cultural da época, alimentada com a moral e a razão. O que o Zé fez? Zé foi justo, reto, honesto. Ele não quis expor a mulher que amava. Havia amor e não um senso de razão cultural e só depois que Deusão viu essa atitude do Zé, foi que ele mandou o carteiro angelical ir lá falar com ele pra explicar umas coisas. O que Jesus puxou do pai foi a profissão, mexer com as madeiras, fazer cadeiras, mesas, relação forte, foi pendurado numa madeira também. Mas voltemos ao ponto, Jesus após do sermão do monte fala sobre adultério. Em Mateus 5:27-32 ele dá um caldo imensurável, mostra talvez o motivo pelos quais vemos estupros acontecendo ainda hoje. Seu tom de voz é direcionado para os homens: "eu digo pro vocês ai, qualquer um que olhar para um mulher com intenção impura, no coração, já adulterou". A palavra "adulterar" significa imitar, viciar dolosamente, falsificar, deturpar, corromper.

As mulheres tem a completa razão de reclamarem do assédio e o assédio começa primeiro por conta do olhar. O olho é um órgão tão abençoado que pode ser um tirano. Poderíamos passear nos caminhos ondulosos da imagem de Roland Barthes, caminhar pelos campos confusos do Sartre pra saber que o olho tem um poder enorme de despertar ações. O "saber olhar" (agora não encontro outro termo mais ideal) impede a promulgação e acarretamento de ações como um estupro, pois é um-dois para que a imaginação use a imagem e a torne em algo concreto. Isto somatizado ao aspecto de que a mulher é tida como objeto erotizado, vendido pela mídia e pregado entre os ambientes masculinos. "Mas eu nunca estuprei uma mulher". Cara, pensa, pensa bem, talvez nenhum dos 33 homens que violentaram aquela menina não tivessem nunca antes estuprado, mas estupraram e isso é um fato, incentivados pela força do olhar como poder. Me vem a mente que Tolkien, ao ter escrito Senhor dos Anéis, acertou em colocar Sauron como o mal que não possui corpo, não possui pés nem mãos, apenas um olho=olhar e por meio dele o mal tem um poder desastroso e assim quem desde o começo realmente sofre as consequências é a mulher.

Durante a vida de Jesus outros exemplos de desconstrução do homem surgem, como o trecho que está em João 4:1-30, quando ele conversa com a mulher de Samaria. No versículo 9 se encontra o abismo que havia naqueles tempo, não só entre gêneros como social-étnico "Como tu, sendo tu judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?". É outro ponto importante. Tanto Jesus como a mulher (infelizmente não há o registro do nome dela) sabiam da existência desse abismo, pois a mulher samaritana não era só discriminada entre os judeus por ser samaritana, mas também por ser uma mulher samaritana. Jesus quebra um paradigma, ele se aproxima e pede água a mulher. Ele mesmo poderia tirar água do poço, mas não, a mulher sabia que ele não tinha o balde, logo, Jesus, homem, precisava da mulher para uma coisa tão essencial para a vida: beber água. Dentro da alimentação e formação de um humano, seja mulher ou homem, a mulher é fator primordial, pois o alimento da cria é o leite materno. É óbvio: não existe leite paterno, logo, a mulher é essencial para a formação de uma criança e o homem não, aparentemente, isso parece que serve pra justificar o abandono paterno que muitos homens fazem, porque a criança não precisa essencialmente do homem. Neste pedido de um homem para uma mulher, a ilustração que pode ser feita é que o homem tem que estar ciente de suas limitações, ele pode e deve mostrar sua fragilidade, não pensar que pode dar um jeito, ser herói. Jesus, o filho de Deus boladão, pede água para uma mulher samaritana, mostra que precisa dela e não o faz por complacência, era uma necessidade real.

Outra passagem que me impacta muito é a história da mulher que iria ser apedrejada. Está em João 8:1-11, mas ela merece a leitura mesmo já sendo bem conhecida. Uns caras, todos eles escribas e fariseus, que se formos fazer uma correlação aos tempos de hoje, eram os caras cultos, algo como "pais da família tradicional judaica", arrastam uma mulher dizendo que ela tinha cometido adultério. Detalhe, trazem somente ela e não o homem e a colocam na frente de Jesus. Jesus então escreve no chão. Isto aqui me intriga muito, pois no texto não se diz o que ele escreve no chão e eu fico imaginando o que foi escrito ainda mais diante daquela cena. Os caras queriam apedrejá-la porque aquilo era lei: a mulher que cometeu adultério deveria ser apedrejada. Novamente a cultura se faz presente com suas tradições. Jesus se posta entre eles e a mulher e diz "quem aqui não cometeu pecado que atire a primeira pedra". Assim, a própria consciência dos caras foi pesando. Ninguém atirou alguma pedra. Foi um homem que entre homens se levantou e viu quão irracionais os homens estavam sendo. Jesus teve o papel não de herói, nem salvador, ele apenas não aceitou a injustiça, ele tomou parte, um sinal de empatia, algo que nenhum deus poderia fazer, mas apenas os humanos podem fazer. Como homem se posicionou diante dos outros homens que seguravam em suas mãos o poder e assim assinalou que aquele ato de violência não poderia ser feito. É uma postura de alguém como minoria, se levantar diante de uma maioria e apontar algumas verdades. Isso também é político, ah, como é!

Pra terminar, achei um poema que procura exemplificar um pouco o que sinto. Débil, impotente, um erro, mas pela graça envergado no processo de mudar e mudar hábitos entranhados. O poema de Friedrich Schille, intitulado "A Dignidade das Mulheres", traduzido para o português por Maria do Sameiro Barroso. O olhar do homem para a mulher, chegando a cume de afirmar que a paz, tem a voz feminina, assim como a família, que reúne. 


Nos reinos do poder masculino,




Vence, por direito, a força,




Pela espada se impõe o cita




E escravo se torna o persa,




Esgrimem-se entre si, em fúria,




Ambições selvagens, rudes,




E a voz rouca de Éris domina,




Quando a Cárite se põe em fuga.





Porém, com modos brandos e persuasivos,




As mulheres conduzem o ceptro dos costumes,




Acalmam a discórdia que, raivosa, se inflama,




Às forças hostis que se odeiam




Ensinam a maneira de ser harmoniosa,


E reúnem o que no eterno se derrama.





quinta-feira, 21 de abril de 2016

Hora silenciosa

Dentro de minha criação, educação e percepção de estar vivo, existente, tive o ensino bíblico por meio do círculo familiar e com isso tive que praticar "a necessidade de estar em silêncio" ou fazer a tal hora silenciosa que tem outros nomes, como devocional, meditação, etc. 

Posso dizer que até os 19/20 anos eu praticava isso com temeridade, trazendo a carga que era o evangelho sobre a minha vida, evangelho como novidade espectral dos novos mandamentos que se achavam no novo testamento. Até hoje me espanta a prerrogativa de certas alcunhas cristãs, ou melhor, protestantes, talvez seja isso que me instigou rebater com força certos pontos vitais sobre minha caminhada "com Cristo". 

Por conta das passagens, afastamentos, trabalhos e outras coisas que podemos imputar culpa, mesmo que sejam apenas circunstâncias, afastei-me do devocional antes de afastar-me da igreja. O único fio que me ligava até a profundidade mais dolorida, aquele espaço que separa a alma do espirito, eram as duas horas onde preferia ficar escrevendo como uma tradução instantânea as mensagens ouvidas na igreja onde sou membro até hoje, Igreja Batista Memorial, em São Paulo. Foram esses momentos que me fizeram o cristão que sou hoje: incomum. E que isso não soe como distância de realidade, nem que seja mais uma sub-regra episcopal dos membros de esquerda dentro de uma igreja de direita, porque isso são argumentos superficiais. Haja política e outros nhénhénhés. Sou incomum, diferente e ao mesmo tempo igual e em pé de igualdade aos outros membros, humanos, com coração batendo no peito. Contraditório. 

Aos poucos fui me afastando da igreja primeiro pela posição de sua liderança diante do cenário político, depois pela distância física. Depois porque eu realmente não tinha nem um pingo de vontade de ir e ver os rostos das pessoas. Não era desprezo, nem nojo, era apenas uma indiferença para a massa igualitária de sorrisos à esmo, isso quando sorriam, seguindo um padrão de membresia e participação voluntária na igreja que parece um molde oligárquico e condescendente de quem pode ser o quê dentro da igreja. E assim, como descendências dentro da casa de Israel, os sucessores são sempre das mesmas famílias, no máximo dos mesmo círculos de convívios, uma promulgação rasteira da herança divina. Heresia. Eu era um desses. 

É aí que de novo o senso crítico me atropela, pois era na minha hora publicamente silenciosa que eu me consternava e escrevia, anotava referências para escrevê-las depois, me interrogava como podia haver um padrão de atos sucessivos dentro de mim com os mesmo erros, meu desejo de saber de tudo, a segurança de entrever-me primeiro antes que ao outro, numa busca implacável de resoluções. Faculdade, a vida adulta, a transição, o crescer, as decepções, o afago, as carícias, o hálito velho de tentativa e as expressões contínuas de expectativas que plantava dentro da memória. Bronca de mim mesmo. Eu era constrangido pela minha estranheza, incomunidade, a falha de trazer o controverso. Aos poucos, a histeria das minhas cenas teatrais, assim como as mentiras, que eram como muletas, a sombra, que assombra, os blefes, tudo, começou a realizar-se como um prognóstico doentio. Se não fosse por amigos que se aproximaram como abraços que não me apontam e afundam, se não pela companhia de humanos, reais e táteis, que andam lado-a-lado, nem à frente nem atrás, escutando ou até mesmo tateando o caminho comigo diante das experiências e traumas gritados como trovões diante do horizonte do futuro, eu estaria sem mim. 

"Por aí se conclui, com bastante clareza, que para aprender é mais eficaz a livre curiosidade do que um constrangimento ameaçador." Confissões, Livro I. 14. 23 Santo Agostinho. 

A leitura de Santo Agostinho de um modo denso começou no processo de reabilitação do ano ímpar de 2015. Aliados a alguns estudos do Nildo Ouriques, os textos do Chesterton, debates abertos sobre políticas e principalmente Darcy Ribeiro. Foi nesse momento que me abri pra vomitar a parte mais sólida que amontoei por anos. Dando esperança a grilhões que podiam transformar-se em ferramentas para uma vida menos manipulada pelo o que acho que os outros acham de mim. E escrevo este texto, dentro de um imbróglio onde desconheço o motivo pelo qual se assomou um medo tão gigante sobre mim. Estou em outro país, outra realidade, a falha dos meus trabalhos nada fixos, como se isso fosse um erro, o poder não olhar nos olhos para reter uma discussão, mesmo que ela ainda exista sempre na mente antes de sua exposição, a necessidade irremediada de saber o que faço e porque faço me revela tantas alternativas dissidentes que somente me confundem mais e é o estopismo que bloqueia numa madrugada minha ânsia por criar. 

Agora, é minha hora silenciosa, porque fudeu. 

Me sinto amassado, rejeitado, malvado como um terremoto que não pregunta e apenas treme e abre fendas onde quer que esteja. O amortecedor da realidade, uma arma vital que utilizava mas agora não tem mais nenhuma utilização, brecou nada, é um beco. Amasso o então já Filipe amassado. Porém, esta inanição dura pouco, porque a lembrança com sua síncope hoje decidiu presentear-me com o fio da alegria. Amei, amo, amo demais a oportunidade de desgastar-me e dedicar-me ao máximo ao processo da existência, sem ter um motivo, sem ter uma audiência, sem precisar esboçar sorrisinhos que compactuam com a mentira. Eu quero sempre o inesperado, o que me atropela, não quero a sorte de uma existência tranquilinha, eu fui fundado dentro das cercas do que se deve e o que não se deve fazer, mas existo com a liberdade de saber que posso sucumbir, errar, reconhecer, adoecer, sofrer, pensar, escrever e existir, mesmo que tenha que pedir as desculpas devidas, mesmo que seja horrível reconhecer mais uma vez que errei, mesmo quando os dedos não conseguem traduzir em BE-A=BÁS o que se passa no meu cérebro aquoso, Mesmo que haja um bloqueio diante do sucesso de uma vida correta para a maioria, é na minha hora silenciosa que esboço um abraço a mim, sabendo que existo e fui criado para ser livre, mesmo não sabendo tirar as marcas dos grilhões, mesmo não sabendo como manter o curso diante desta geografia esburacada que é a realidade. É na minha hora silenciosa, entre o intervalo de um chá preto e um cigarro, que vejo que estou preso em mim e isso já me faz livre, pois Deus não criou algo ruim. A insegurança de não saber o que fazer não pode ser a prerrogativa que impeça o movimento. 

Eu existo pra mim, primeiro, depois pra vocês: isso me dá alegria! 

Queria beijá-los, abraçá-los, fazer cócegas, despejar uns impropérios, abraçá-los novamente, olhá-los como se fosse a primeira ver e reconhecê-los, penetrá-los, deixar-me penetrar, conviver, inundar-se. Eu amo a minha existência, tenho o privilegio de saber que amo que vocês existam e lembro de vocês nas minhas horas silenciosas. Vocês são minha igreja, comunidade, grupo, não essa porcaria de aparências e oligarquias funcionais de um aparelho burocrático. Sejam cristãos ou não cristãos, não é necessário acreditar em quem eu acredito, eu apenas agradeço ao que anda ao meu lado, pela existência de vocês. Humanos. 

"O temor, enquanto zela pela segurança, detesta os acontecimentos insólitos e inesperados, que ameaçam os objetos amados; mas para ti, que há de insólito ou inesperado? Quem pode separar-te daquilo que amas? Onde se encontra segurança, senão ao teu lado?" Confissões, Livro II. 6. 13 Santo Agostinho. 

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Vale, construção e sombras

Olha bem de pertinho pra sentir também o cheiro que exala dos poros perto dos olhos. É cheiro de chuva. Dá pra ver o cheiro. Se quiser dá até pra tocar. 

Dentro das inúmeras contradições que se escondem nos cantinhos de cada letra digitada, existe essa pequena distância que pode ser calculada com veemência. Essa distância que é tão real quanto o ponto no final da cauda da interrogação que procura do mesmo jeito encerrar um questionamento e declarar virtuosamente que uma resposta pode ser dada ou no pior dos casos, que uma outra pergunta pode dar início. Assim se vale o texto e seus codinomes esparsos. 

Mas imagine um vale cujo tamanho é incalculável, nem mesmo o melhor dos olhos, aguçados e espremidos para forçar o máximo de foco em extensão conseguiria enxergar seu fim. Vale, feito de lavandários em pedra que não consegue mais distribuir ao vento seu odor azul. Juntamente com esse mar azulado petrificado se encontram as pequenas estátuas das realizações humanas, solidificadas por conta do tempo, estabelecidas pela história, memografias endurecidas pelo trabalho da resistência em meio ao olvido. Nesse vale o sol brilha com força mesmo quando a chuva cai, revelando as diferentes formas derradeiras de sua posição e talvez seja isso que salva o vale da monotonia: a posição e o andar das sombras. O tempo, calculado em suas eminências pelos que acham saber suas passagens, ali, não possui valor algum. Ele é pó que voa, pó que soa. 

Imagine construir com sussurros esse vale e ser cego o suficiente para apenas ver que os poros suam os rios enclausurados do pulmão que por muito tempo já afogaram as palavras que ecoaram como cantos submarinos dentro das ante salas já esfumaçadas pela neblina do prazer.

Construí as estátuas

As sombras não as construí.

Havia um tempo em que eu me amava mais. Mas esse não era eu, era minha sombra. Temporária. 


sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

A vã ilusão do processo como trajeto

Eram 17 horas do dia 21 de janeiro deste ano de 2016. Eu já roía os dedos, ficava agoniado pela ansiedade da feitura, do dar à cabo, do fazer. Era por conta de nesse mesmo dia acontecer o evento "Mesa Branca" no Salão das Ilusões, na cidade de Fortaleza. Nessa mesa, duas pessoas desenham ao vivo e os desenhos são postos à venda e as pessoas pagam o quanto quiserem ou puderem. A semelhança desse evento com o projeto "Diálogos" que venho realizando é muita, algo à mais para me deixar violentando as horas. Os dois convidados  para se sentarem a mesa eram Pedro Augusto e eu. Mais tarde haveria de me sentar frente à frente com Pedro Augusto. 

Papel, mesa, caneta, cola, caneta, aquarela. Nesta instrumentalização da performance muitas variáveis tem que ser consideradas: se trata do processo exposto. Mal se sabe o que pode acontecer durante o processo de alguma obra quando se está só, ainda mais quando se encontra num ambiente novo, um território de exposição instantânea. Pedro Augusto, com uma toalha costurada, ponto cruz, quase curativo de abertura com a insignia PEAUG, digna de fotografia, se descobre, e leia-se "tirar o véu". Deu pra sentir que no começo da mesa o nervosismo era denso, penumbra intimidadora. Eu mesmo pintei um quadrinho pra apenas relaxar minha ansiedade de como começar, assim, aos tropeços, como para disfarçar as emoções e dizer pra mim mesmo "tá tudo bem". No final, descartei o quadrinho. Olhei o Pedro quase querendo dizer-lhe com os olhos "estamos no mesmo barco-mesa".

Antes já havia conhecido o trabalho do Pedro e o que me chamou a atenção de primeira foi a forte mensagem que é a mão de seis dedos. A vi primeiro como uma mão sombra, preto absoluto, sombra densa próxima ao objeto que a gera e o elemento do sexto dedo, o sexto sentido, o alheio, a sobra. Ver na mesma mesa o processo do vazio cheio do recorte, essa mesma sobra de material ou a seleção cuidadosa da sobreposição foi para mim inspiração. Recortei uns papéis de modo agressivo, era o expurgo, a deixa, a exposição com uso do pleonasmo ao máximo do que acontecia nas visceralidades do momento. O processo então era o próprio abandono e descarte, como conversei com ele num dos intervalos pra fumar um cigarro seguido do outro. No salão das ilusões não existia a ilusão de que o processo era apenas o trajeto, o caminho, o trilho, não, ele era o fim. Existir naquele momento era estar sendo o processo. Tanto é que me foi custoso largar a mesa, apesar do horário, tinha começado a enganchar as coisas dentro e fora e vendo o trabalho do Pedro junto ao meu, era não só o privilégio com suas devidas demagogias e superstições, era sim um processo entrelaçado que se encosta, retraí, distancia-se para ver o todo e volta ondulado, em serpentina e vento ao ponto de encontro que já havia mudado de lugar. 

Ao ver os registros fotográficos da Marina, do Ramon, Raquel e do próprio Pedro, me deu vontade de deitar e dormir naquela mesa, sem lençol, me cobrindo com os papéis, recortes, a mão de seis dedos, oculta, fazendo cafuné nos cabelos esparsos do pensamento, pois com saudade de casa, carrego o lar dentro de mim e o lar é meu continuo processo de permanência, onde quer que esteja, onde dobro e desdobro, onde aguado pelo suor ou pela lágrima ou pela baba desajeitada de um sorriso assim descabido, percebo como a arte é tão avassaladora, intensa e animal. Ela não me ilude, ela me faz iludir, como uma mentira que na verdade é um exagero sem licença mas nesse dia, de mesa branca, limpa de passado de mim, me iludi na profundidade do processo de um trabalho em conjunto, onde a comunicação era gesto silencioso, sem balbucio de palavra. 














quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

aponte a ponta

seis e tralálá da manhã. comprei um reloginho na rua, por vinte reais, aqueles da casio, que o pessoal nerd da escola gosta de usar. passeei onde meio acabrunhado mas atento, bem atento por sinal, com os olhos abertos para o entorno, vendo os elementos de construção elucidatórios. não tomei nenhum remédio para essa constante dor no baço, mas não que seja embaraçoso, é apenas um incomodo de existência. 

"toma água", me disse uma delas, dessas pessoas que aos pucos vão mantendo contato constante com a realidade da existência compartilhada. a outra, a outra apenas queria minha vontade, vontade e força pra elevá-la ao cume e fazê-la despencar como tal rocha lívida. se entre os pesos dos humanos sempre houver essa relativização tão pungente, sempre vai dar merda. mas existe uma velação informada, já avisada e compartilhada, é um aceito público perante o medo e a construção dos ensejos materiais, onde cada vez mais somos pró-eficientes em linguagens mil e não sabemos nada de interpretação do gesto. não existe gesto, não existe a palavra em movimento que golpeia ou desliza, existe apenas esse vapor de cozimento mal feito, que mostra o cheiro da indefesa histórica da humanidade em suas frivolidades emancipadas pelo direito da existência libertina. 

e é nesses momentos que recorro ao meu porto aqui na terra movediça onde pisar em ovos é assunto normal e recorrente. converso com minha elefanta-bailarina, meu estandarte significativo de resistência em meio a essa guerra oblíqua onde as armas são apenas apontadas criando um clima assíduo de desespero e anseio para ver logo o projétil ser disparado, ouvir o estalo seco como de um ramo sendo quebrado. mas nada acontece, pois apenas se anda armado e quando se atira, se atira pra pegar de raspão, não pra acertar em cheio, afinal, é uma indireta daquelas que fazem você lembrar da ardência e não do impacto de receber no peito, no baço, na pélvis a carga polvorosa da realidade. e tenho eu essa preferência pelo acerto, uma busca pelo impacto total, que me faça sangrar de verdade, me deixe sem fôlego, tropego, procurando o ar pelos ares, que me deixe contorcendo em pose fetal, agoniando, gemendo. não esse aponta-não-atira, não essa mira certeira que nunca atinge, não essa arma mortal que descansa em reserva gerando apenas o instrumento controlador de movimentos. 

mas danço, sim, eu te danço. realidade, eu danço em você, mesmo quando você não quer se fazer tão presente como um presente de um dinossauro de montar que apenas podemos imaginar sua real existência por meio de fósseis.

e mesmo o corpo esquartejado, repartido nas fragmentações de significados lívidos, se ergue e aponta com seu membro decapado para o horizonte que nasce como nascem os maracujás. acenando para a prole que guerreia essa guerra miúda das relações de troca e gerações de poças nada densas e fica feliz por ter perdido parte de si pra ver como causa tão bem não se proteger diante do fato existência. diferente que a carne, a alma consegue nascer como que de novo, fazendo crescer membros fortes, já costurados com o fio do passado curtido no sol da aceitação. 

instabilidade, estou deslizando, já aprendi como cair em você. 


sábado, 2 de janeiro de 2016

A violência carinhosa de Keith Jarrett

Sei exatamente como cheguei a escutar Keith Jarrett. Eu tinha uns dezesseis para dezessete anos, trabalhava como office-boy na avenida Pedroso de Moraes, no bairro de Pinheiros em São Paulo. Essa rua é ainda conhecida pelos sebos que possui e foi nesses sebos que um dia debruçado nas caixas de CDs achei uma coletânea de vários artistas de jazz. Comprei por míseros quatro reais um CD de capa azul com um saxofone ilustrado e ao chegar em casa ouvi o disco sem parar por algumas vezes, mas repeti uma das faixas mais do que as outras: era uma música do Keith Jarrett com o Standart Trio. No ano seguinte eu escrevia no papel do amigo secreto da firma que queria o CD "Life Between the exist signs". A pessoa que me tirou como amigo secreto ficou quase escandalizada, como um púbere gostava de Keith Jarrett? Ao chegar em casa ouvi o CD com efusão e fiquei me demorando principalmente na música Love No. 1 que é a segunda faixa do disco. 
O jazz de alguma maneira sempre me fez sentir mais velho, como um pouco superior em tempo do que os outros, como se eu já me imaginasse frequentando esses bares escuros, cheios de pessoas cabisbaixas, semi-lúcidas e que talvez eu pudesse tocar um piano de parede, com paletó surrado e sapatos gastos, cabelos despenteados para um publico pequeno, para quinze pessoas. A música Love No. 1 me despertou ainda mais esse ensejo que perdurou por um bom tempo, mas depois percebi o quanto o Keith Jarrett era descomunal ao ter contato com a versão completa do Köln Concert, gravado dia 24 de janeiro de 1975. Minha petulância de admirador de jazz caiu ao ver um peso indecifrável que emanava não só das mãos dele, mas de sua performace. Aquilo não era jazz, não poderia ser, aquilo era um ato teatral confundido num gesto musical. Levou-me tempo para calcular o que era aquilo que eu me atentava a ouvir no mp3. Lembro que comecei a escutar no ônibus, à caminho do trabalho, à caminho da faculdade e somente anos depois vim saber que o concerto era dividido em três partes. Eu já tinha dividido a apresentações em movimentos pessoais, momentos em que ele parecia estar mais entregue a um amor e noutro a uma violência incrível, raiva das piores, radiando numa persistência, como se quisesse encaixar o acorde à força. O ritmo marcado e relevado, acompanhado de um canto e solfejo sofrego me deixaram seriamente desnorteado e achei até meio feio, mas com o tempo entendi que aquilo era parte do processo de criação ao extremo. Era necessário escutar mais para ver se aquilo era realmente aquilo. Sim, era algo grandioso, especial, onde uma pessoa podia fazer com um piano uma enxurrada de informações. Keith parecia um bipolar tocando: opostos se atraindo, era de uma força, comprimindo e tracionando as harmonias. A última parte do concerto, de um andamento que me fazia acompanhar com os passos, acelerando e diminuindo, se tornou o trecho de maior admiração. No íntimo sabia que havia sido feito para caminhar no outono, com céu extremamente azul e vento na cara, um idealismo. O conjunto daquela mais de uma hora de concerto, era belo até que recortado, mas toda ela, do início ao fim, parecia ser um texto torrencial. Eu gosto da torrencialidade. 
Em dois mil e treze tive uma outra descoberta, o concerto La Scala, gravado em 1995. Como eu já tinha reservado um lugar especial para o concerto de Köln dentro de minha prateleira de predileções musicais, quando ouvi o concerto La Scala um pedaço de mim ficou pesado, como golpeado e ferido. O início do concerto traz um romantismo belíssimo. Se eu pudesse comparar o início de La Scala com algum texto literário, o colocaria ao lado de "A menina dos olhos de ouro" de Honoré Balzac mesmo às vezes me sentindo como habitando o texto de Saramago "O Homem Duplo". Keith Jarrett logrou um feito impressionante, unindo um sofrimento de permanência, com acordes que parecem insultos ditos com calma, como uma chamada de atenção dita com sussurros para alguém que se ama muito. Com o tempo a ideia de que esse concerto seria um trajeto relacional de uma pessoa e seu entorno se firmou. Uma novela. Este pensamento se fez mais certeiro com as agonias do ano de dois mil e quinze, quando os gemidos esboçados sem vergonha pelo Keith Jarrett durante a execução do concerto, me mostraram uma correlação com a doença de ser, algo que poderia casar com o livro "O ser e o nada" do Sartre, mas que leva um tal sentido de náusea de existência, assim como existir somado ou anulando-se ao outro. Aos vinte e poucos minutos se sente um entrave, como se quisesse explodir, gritar, mas tal ato é suprimido pela agonia de não saber como fazê-lo, tentativa de conseguir sair com pressão, murmurada. Um solavanco do trajeto, porrada no baço. É como descrever alguém que ama muito a outro alguém mas encontra perrengues de comunicação ou talvez a necessidade de esclarecimento das coisas para si mesmo, em meio uma avalanche de informações desnecessárias. 
Como estou ouvindo neste instante a sequência de acordes graves que parecem passos de um gigante, entrego as forças destas mãos como se também estivesse tocando um piano de cauda, para parecer mais imponente. Vingança no campo criativo, onde o sentimento supura como vulcão, escorre e transborda. A calmaria surge então num acorde e noutro, dito sem pressa, prolongado, pausa respirada com força, descendo uma escadaria, como que fugindo ao ritmo inebriante de Bourne e tocando a porta que está fechada a sete chaves para ver se pode entrar num dia de extremo frio. 
Keith Jarrett, com talvez sua conhecida arrogância, proporciona esses momentos únicos de total atenção. Aliás, seu afastamento das formalidades em suas apresentações, mostram um foco cometido e uma total entrega, é um corpo que fala e não se importa de como fala. Não é um espetáculo para apenas se apreciar, é para ser escutado com vontade, ser pronunciado com os lábios. Me surpreende a escala, o tamanho dos momentos, dos movimentos. Parece que Keith quer dar tamanho ao tempo, mesmo que esse tamanho não se encaixa dentro dos padrões que pensamos haver existir. Uma expansão sensorial que pode ser visitada numa madrugada de tristeza fúnebre ou num dia sentado diante de um imenso mar de azul penetrante. Não sei, todos os cenários, que permitam a reflexão do tamanho e profundidade dos gestos parecem ser adequados para sentir essa brutalidade melódica que detona uma simplicidade lânguida de prazer e remorso. É violento, intenso, machuca e afaga. Isso mesmo, Keith Jarrett é tão contraditório e tão certeiro como qualquer relação humana e isso deixa claro em sua música. 


quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Amardurecimento

Quem é que grita por ti? Você.

O jeito de colocar os pés esparramados de tanto andar sem calçado sobre a cadeira revelando aquela curva delineada por conta da pele estirada lombar ou posterior, também pode ser, que só era possível por conta de um shorts pequeno, de jeans negro, negro cinza, parecendo um céuzinho de estrelas, acompanhada com aquele tecido selvagem estampado único de derivadas aquarelas imperceptíveis pois é a associação de cada um que completa as referências, tecido de pano leve que vestia a parte de cima da indumentária da despedida prévia dos carinhos, carinhos traumas, me preparou pra dizer de boca aberta, mostrando os dentes, as obturações e o carmim de uma zona corporal que serve de transição entre o dentro e o fora, as frases que nem sequer foram ouvidas por causa de um alheamento tão icônico e incógnito, que fez com que essa posição fetal sentada sobre cadeira de plástico disposta em mesa de restaurante barato onde a mesma boca que falava tragou com tanta parcimônia uns pedaços de carne que mereciam mais elogios mas eles não foram dispostos sobre a mesa pois não houve tempo e ainda não há tempo, tempo esse que passou tão rápido e com tanta demora enquanto se sorvia os desejos de voltar, escapar, insurgir contra aquela realidade estapafúrdias, fez com que o vento tirasse o som e permitisse a surdez ocasional e o sentido que pouco faz sentir o caos da urgência, pois somos instantâneos como os macarrões de sódio, as comidas que já vem em lata, como os aplicativos de transporte individual que leva os corpos pra cima e pra baixo e às vezes nem se parece ter saído do lugar, pois o território acompanha e o território é ancora juntamente com a segurança no futuro do que se planeja que, claro, veja bem, parece ser mais sólido que outro corpo que se estende mas não se entende com clareza, aliás, extrema clareza tira a possibilidade dessas regiões de sombra, que dão volume, fazem as coisas parecerem mais consigo mesmas, mesmo que as coisas, por força da natureza, sejam unicamente singulares como o poder de um bom pleonasmo encaixado com sabedoria e saber que o que se sente é tão afiado e mortalmente cortante quanto o que não se sente é o resultado de uma digestão ocular transmitida aos órgãos de processamento que fazem com que o corpo que se desespere e comece a tremer, seja aconselhado a respirar, e sim, se respira, se respira muito, pois ser comparado dentro de uma tabela ordinária de classificações e termos standards de psicologias de convivência reais, onde a praticidade não pode ser colocada em mesmo peso com o que não existiu causa retardamento da cura da infecção ocorrida pela sujeira do atrito das resoluções, se sofre a demora de um entendimento completo e não menos complexo de como o amor, no seu sentido mais ausente, pode fazer tanta falta quanto o ódio e como o carinho, mesmo atrelado a uma aproximação que não quis bater, espancar, ferir, apenas enterrou e empolou, pressionando com força, exigindo a alta compressão sem compreensão de que de madrugada parece que se pensa com mais calmaria, e que no fundo é o resumo do dia e da noite, resumo é que não se pode ser como os outros porque a obviedade ensina que os outros não somos nós, e se inclui nisso o próprio risco de interiorização dos passeios pelas geografias da alma, alógama, que carrega o desígnio de que para que aconteça um relacionamento, no mínimo dois e nem se entra em assuntos profundos, esqueçam isso, a profundidade não ajudou e nem vai ajudar agora quando a leitura é tão dinâmica quanto a despedida mas não permite o algo mais e haja perdão, pois não é verdade que não houve surpresa, pois navegar em águas de outros domínios é algo tão fascinante quanto reproduzir o som de uma mão levantada, os olhos virados, cabelo agarrado, postura que revela o feixe de uma rachadura que permite a devassidão das águas contidas, melecas mil, de que é tão difícil a aproximação sem o gesto é que este gesto, ou esse, se convier, já virou fogo de tabaco seco que dá mais pigarro que incêndio de sulfite, não me aguentei, pois tudo era erro, tudo, qualquer coisa e somente quando o corpo deita em outra madrugada e engole o sonho para defeca-lo nas nuvens ou no caminho de terra batida é que o travesseiro se torna confessionário de outros tipos líquidos de mostrar cuidado e presença.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Minérios gerais, rio amargo, Drummond animado, carinho retesado.

Acordo, vejo um movimento pequeno da cortina que se afasta um pouco da janela e logo volta a colar-se em sua superfície de vidro revelando em ritmos um azul que aos poucos vai se tornando em amarelo quase verde musgo por causa da pintura do prédio da frente que reflete. A sombra do quarto penetrado na lama, que é misto de falta de discernimento, ponderação em porcentagens baixíssimas e calamitosas, elucubrações minerais que sobem à superfície por causa da temperatura quente que não é contida pelo lençol fresco e limpo de outros territórios. Viro à direita e procuro não ver nada, pois ali me foi avisado que existia somente o vazio, perpetuado por conta do rápido percurso feito entre o céu e o inferno. E retirando as tralhas, a mochila azul que veio da Colômbia e já existe a uns treze anos, coisa da mamãe, beijo a testa, fronte, de quem me beija a lembrança. Saio deixando os cacos de um macarrão pela metade e um big mac inteirinho, novinho em folha, virgem de mordida. Muita sede ao pote não alivia a fome. 

Tomo a rua dentro de um carro padrão, ganho a praça da estação e penetro no saguão de pessoas que vão, eu sei, vão não sei pra onde, dúvida decorrente de poetas ou de corações que se inclinam para o significado do destino e fico cravado na fila de espera para o ingresso desse transporte bucólico chamado trem. Problemas de reservas, sistema lento, o povo já logo cedo nem esperando o dia alumiar direito vocifera, solta tripas pela boca, empunham o armamento do dedo em riste. Cacete, eu podia me juntar a horda, mas não dá, forças não tenho nem pra sequer xingar o guardinha que sentenciou "até as 7:20 se vende bilhete, quem conseguiu comprar, comprou, quem não, volte amanhã" e eu sabia que não tinha amanhã para minha situação, meu deslocamento era de tal modo necessário, de tal modo preciso, que apenas vi a fila andar a passos de minhoca decepada e exatamente fui o último, num golpe de esperança que o rapazoilo com sorriso irritadoramente amarelo do guichê teve, vendo que já rolavam essas interpretações lacrimosas do drama. Fui dantesco, mas calado. Acomodado no último vagão, em meio de uma farofada que já é costumeiro, descarreguei o corpo e deu tempo apenas de retirar da mochila o bloco condimentício dos poemas reunidos do Drummond. Mal vi quando o trem, despedindo-se com parcimônia de faroeste, começou a se afastar da plataforma. 

Apadrinhado pelo banco descômodo e a trilha de descanso que me fez lembrar do Alex Fontenelle e da guitarra que deixei em São Paulo, o mp3 toca "Sea of love", música daqueles que se dizem ser "os nacionais". Cheguei lambendo as palavras que falavam comigo por interesse e que aqui destaco como fragmentos, em itálico e caso haja alguém que não acredite na minha citação, espero que o tempo o remoa, mas entendo tamanha ênfase, já que é bom saber do que se fala e como se fala. 

As experiências se multiplicaram 
viagens, furtos, altas solidões, 
o desespero, agora cristal frio,  
a melancolia, amada e repelida 
e tanta indecisão entre dois mares,

entre duas mulheres, duas roupas.
Toda essa mão para fazer um gesto 
que de tão frágil nunca se modela, 
e fica inerte, zona de desejos
velada por arbustos agressivos.
(Um homem se contempla sem amor,  
se despe sem qualquer curiosidade) [1]

Vejo a paisagem e me deparo com o início de um mato brusco, pesado, arvores que me levaram para as viagens onde eu passava pelos intensos materiais imagéticos e me vi do outro lado do oceano, me despedindo também com a bandeirola do sorriso de Joana, Margarida, Raimundo, Gonçalo. Raiva. Dava uma mão pra sentir o cheiro de carvalho úmido de manhã de outono perto de Pombal, enquanto o intercidades se movia com mais constância que esse trem da Vale pois num instante ele parou e o aviso sonoro de problemas e avisos fez-se soar. Mas continuo a leitura que esta engajada em me desconstruir aos poucos, desmontando-me sem pressa. 

Sou varado pela noite, 
atravesso lagos frios, 
absorvo epopeia e carne,
bebo tudo, desfaço tudo,  
torno a criar, a esquecer-me: 
durmo agora, recomeço ontem [2]

O trem ainda parado, avisam que vai demorar ainda. Barulho. Toca agora uma coletânea de folks do Fitzsimmons. Paro e olho pra a paisagem que eu esperava que corresse e não corre. Lembro que estou novamente em trânsito, fecho os olhos, agradeço a um Deus que consola. Agradeço pela vida, pelo momento de pausa e deixo rolar mais algumas lágrimas, afinal, o mesmo Deus não deve ter criado as lágrimas apenas para limpar os olhos, mas também para fazer as palavras saírem por esse mecanismo que capta imagens com furta cor e nuance.

Sinto falta da vovó Hortésia, lembro que dia quinze deste mês é aniversário da vovó Luiza, Maria Luiza, que fez cirurgia nos olhos. Lembro da Çiça, da Janice, do Niemeyer, lembro do chinelo debaixo da cama, trinta e quatro ou trinta e cinco, dos tecidos pintados com o começo dos diálogos, enrolados e deixados em repouso na ultima prateleira da estante atrás da cama. O trem começa a se mexer. Suspiro.


É mal de enigmas não se decifrarem a si próprios. Carecem de argúcia alheia, que os liberte de sua confusão amaldiçoada. E repelem-a ao mesmo tempo, tal é a condição dos enigmas...
Ai! de que serve a inteligência - lastimam-se as pedras. Nós éramos inteligentes; contudo, pensar a ameaça não é removê-la; é criá-la. 
Ai! de que serve a sensibilidade - choram as pedras. Nós éramos sensíveis, e o dom de misericórdia se volta contra nós, quando contávamos aplicá-lo a espécies menos favorecidas. [3]

Resta-nos a esperança
(como na insônia temos o amanhecer) [4]


Me perco na ponte que atravesso sobre um buraco cinza. Capturo. Sinto nojo. Xingo na cabeça, que desgraça, desgraça das maiores e nada acontece, não vejo mudar aquele cenário, que resgate imaturo da insuficiência. Orelha que estava descascando quando saí, torso nu de frio, posição fetal de pedra, ininterrupta, continua. "Não sinto nada". Minério, escavação, um caminhão no meio do nada, parece que alí houve interrupção. Cocais? Barão? "VAI TOMAR NO CÚ, PE-LO A-MOR DE DE-US, VAI SE FUDER, NÃO AGUENTO MAIS! VAI TO-MAR NO CÚ!". Ontem, hoje, até quando? Deve ser assim que aos poucos o território sente ser gasto e logo um rio laranja surge como um desastre descomunal, já que é um conjunto de elementos e a falha da minha estrutura que não sabe receber nem as pequenas cargas mas lida com as enormes. Me dou conta: somente depois de fechar os olhos pra procurar um pouco do sono sem corpo consigo ver a falha que houve em penetrar demais com urgência e força, quando se queria o oposto, a leveza. 

Drama: não quer dizer que seja mentira, é a verdade com toda força, com toda visceralidade, é um estado de coerência, já que se é pra fazer, que se faça com intensidade, seja para destruir a geografia, seja pra desmanchar os corpos-copos vazios, seja para tentar, ah, tentar, a calmaria. Se acalma. 

O prazer de estender-se; o desenrolar-se, ficar inerte. 
Prazer de balanço, prazer de voo. 
...
O tempo de conhecer mais algumas pessoas, 
de aprender como vivem, de ajudá-las. 
...
O tempo de saber que alguns erros caíram, e a raiz 
da vida ficou mais forte, e os naufrágios 
não cortaram  essa ligação subterrânea entre homens e coisas [5]

As coisas são como são. Se existe, sim, essa angustia, esse incomodo, essa desfragmentação do coração pois o convívio com a intensidade e a própria sinceridade como baluarte diplomático inegociável, a situação e o estado das coisas não mentem, o outro estado mente, mas este, o que esta perto pois é vivenciado com a alma corporificada, ele apenas justifica atos de pré-consciência. Tudo o que se fala então é um grito, o agir e o não agir tomam proporções descomunais, a loucura que se entrega a uma zona de quarentena deslocada e uma polaridade nunca antes percebida de modo concreto. E toca "Habits" enquanto atravesso esse bocado de Brasil com altas montanhas de rocha delineadas com firmeza e uma veia aberta esparramando essa cor que poderia ser bonita em outro contexto, mas ela é bela porque o é, porque não mente, é sincera, apesar da catástrofe.  

Acordo depois de mais um sono e vontade de fumar, mas não dá. Celular não tem nenhuma bateria, avisar que deu certo, que estou no trem, esqueci. Me enquadro na intensidade relapsa dos quadros que um dia ainda quero terminar de elaborar. Maldição, olha só, mais rio feio. Tô chegando.  O que falei, o que fiz, reconheci o erro, eu sei, mas é como nada ou tudo, o mesmo vazio, nem é tiro no escuro porque não existe nem mais munição pra tanta violência cometida e comentada e sei que a paz existe, num recôndito de afastamento, assim como o trem se afasta aos poucos da catástrofe. Esmurro. Caralho, que viagem. 

Estou na estação. Sou recebido. "Oi, oi". Não, abraço mesmo, dou a mão e a vontade. Encontro quem amo sem ter conhecido e realizo sem pestanejar o afago. Converso e converso. Num pulo tô na praia com a Ana, priminha, e me vem a vontade de um dia ser pai, imagine, eu carregando nos braços um pedaço do meu território com outro território e fazê-lo sentir a marolinha que agora passou em meus pés. Nuvem. Vento.  

Não me permito não, imagina, manter a mágoa como um lençol-mortalha? Longe de mim ser isto que me outorgaram ou a situação impôs. Mesmo sem saber por onde, faço sim, dessa constante e o "sempre" tão proibitivo em discursos à dois que parecem um ou multidões, matéria para a lembrança que não machuca. Era momento exigido só de mim, eu exigia, eu declarava, como se não existisse reflexo, era complemento desse lamaçal que fez bem à beira de algum lugar de Carneiros mas que faz tanto mal no desague em Linhares. São formas que repito para o horizonte. Prazer. Sim, dentro disso existia o carinho emaranhado, que escutava, e muito, para poder sentir a essência, para perpetuar a resolução.

Algumas palavras duras, 
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam. 
Mas, e o humour? 
A injustiça não se resolver.  
À sombra do mundo errado 
murmuraste um protesto tímido.  
Mas virão outros. [6]

[1] Versos à boca da noite, ROSA DO POVO 
[2] Idade madura, ROSA DO POVO
[3] O enigma, NOVOS POEMAS
[4] Onde há pouco falávamos. ROSA DO POVO
[5] Os últimos dias, ROSA DO POVO
[6] Consolo na praia, ROSA DO POVO