quarta-feira, 25 de outubro de 2017

DUNAS




07032015

Como os amantes das poesias bíblicas, se existem esses tais amantes, ah, como existem, corações que não lêem a Bíblia para procurar sentido nas coisas, mas a lêem porque já sabem o sentido das coisas, podem interpretar a passagem que transcrevo aqui com pouca memória: "não sabemos para onde o vento vai" e apesar dos diversos estudos climatológicos, esforços científicos de alguns intelectuais que depois se transformaram em seres exclusivamente acadêmicos o que fez perderem um pouco da poesia da ciência, definiram o caminho dos ventos, pelo menos em planos gerais, devido ao mar, as correntes de ar frio e ar quente, que geram esta ou aquela alteração que experimentamos na pele, epiderme. Sabe-se que tais fenômenos meteorológicos alteram a velocidade e a direção da brisa, que pode ser brisa no início mas pode se transformar em ventania dependendo da época do ano e dos fatores de umidade, se não estou enganado. Pelo que sei, ainda assim, ninguém sabe o destino certo dos caminhos do vento, apesar de tantas aparelhagens certeiras.

De um jeito ou de outro os ventos são gerados no engodo da terra, não que a terra, como planeta, tenha um ventilador enorme escondido à sombra das mais altas montanhas, se bem que seria interessante um fato como esse, daria para instalar toda a energia aeólica perto de tal gerador e teríamos energia suficiente para o futuro, mas como não existe engrenagem natural para a criação de um ventilador que gire sobre um eixo e ainda assim não possua marca, grife, importante para os esquemas humanos, devemos nos contentar com o fato de que o vento surge à partir de uma equação precisa de condicionantes mil ainda mais a ideia de um ventilador gigante que impulsionasse ventiladores ao contrário seria a coisa mais burra. Por isso que especialmente hoje estou com a cabeça avoada, com a ajuda desses ventos fortes que tem soprado na fachada deste apartamento instalado à beira das dunas que eu poderia supor ter visto uma descrição igual num dos livros do Amós Oz. Porém, como não sei ler hebraico, ainda, tive que saber sobre seu modo de escrita ficcional por meio de uma versão traduzida, obtida pela edição que uma editora que não produz livros com valores caros, estonteantes, se relacionados aos trocados que possuo no bolso, mas com preço justo, pelo que parece, isso se ainda acredito que a inflação dos produtos não me irrita tanto.

Mas voltemos ao assunto de minha cabeça estar avoada. Não sei porque motivo minha mente levantou voo, posso até me arriscar, mas sei que seria uma tarefa nefasta cavocar o subconsciente já tão afetado pelos remédios letrados. Então, sem demora, decidi perfilar nesta escrita os caminhos deste voo impulsionado, já que sei que minha mente não possui asas. Quando digo cabeça quero dizer também mente, mesmo que essas duas expressões não sejam tão claras assim à olho nu como sinônimas pois uma tem significado físico e a outra um significado não físico, o que quer dizer que uma tem significado material e a outra não tem. Por causa desse instrumento de escrita tão bem empregado por Neruda e tal mal utilizado neste punhado de palavras ajuntadas, sei que se pode confundir a palavra cabeça com a palavra mente pois a cabeça é quase a casa da mente e a mente às vezes precisa de viajar. É o caso da metáfora, que se bem utilizada consegue fazer artes das mais finas, não eruditas, mas a arte popular, permitindo que o cotidiano fosse um pouco mais belo ao gosto da boca, com mais sabor a não ser que os dias pareçam bons somente ao gosto de xuxu.

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Então fazendo uso da metáfora exemplifico que tal vôo da mente é feito como o vôo de uma folha seca que se desprende de uma árvore impulsionada pelo vento que pode ser uma simples brisa e esse vôo não é exatamente um vôo e sim um modo de planar como os pássaros que mal sacodem as asas em movimentos repetitivos e as deixam apenas estendidas como mastros, velas horizontais, recebendo o ar quente que os eleva em espirais crescentes. De certo modo minha mente também voa sem esforços nesses espirais e minha loucura manifestada nesta descrição já é um bom material para a medicina da psicanálise ou até a mais funda, a psiquiatria, que procura ler nas entrelinhas mais metáforas descritivas do que o mal-de-édipo daquele arquiteto de descendência japonesa pela mamãe que é artista plástica. O meu caso pode interessar a esses profissionais, não pela complexidade, mas pela aparente simplicidade de se resolver, afinal, toda mente pode correr o risco de se avoar, ganhar céus e horizontes e perder-se de vez em quando sem saber o caminho de volta pra casa. Já minha mente sabe de cor o caminho pra casa, porém, como filho rebelde criado à base de mimos e rédias burguesas, ela não quer voltar, pelo contrário, ela quer mesmo provocar o provincialismo passeando em frente da cabeça, vestindo-se com os trapos mais sujos, exibindo suas companhias duvidosas, seus amores perdidos, suas bebidas baratas e cigarros carregados de fumaça amarela,  espessa, que lembra a queima de papéis sulfites, porém, reside neste meu caso, um terceiro personagem que observa tudo o que acontece entre a cabeça e a mente e faz o papel de registrar com afinco sem meter os pés pelas mãos ou tomar partido da situação.

Esse terceiro personagem da trindade existencial poderia ser relacionado a um dos três descobrimentos do tio Freud: id, ego e superego, ou poderia ser o terceiro olho daqueles que acreditam nas religiões provindas das terras da Índia, ou poderia ser o amante de um relacionamento sólido entre um casal óbvio. Mas aqui, ele aparece apenas como um exímio observador, esforçado e verdadeiro, que não vê somente essa convalescência entre a mente e a cabeça, mas sim o contexto inteiro, astuto e imparcial como intermediador, talvez até o ponto de equilíbrio, mas ele é bem mais do que isso, ele não interfere na situação. Para dar-lhe um nome, que de certo modo é um nome injusto mas fácil de se relacionar aos sujeitos em questão, aqui o chamo de paisagem, mas não só de paisagem, também o chamo de território. Essas duas palavras para defini-los, estão sujeitas à criatividade de você, leitor, já que mesmo fazendo a melhor das descrições tanto a paisagem quanto o território, onde essa paisagem acontece, são como manchas ao invés de traços característicos.

Sabe-se que por muito tempo o homem decidiu o contorno, o rabisco, a linha, para descrever as coisas. Contraponto ou não, a arte tem tornado a se voltar para mistura de cheios e vazios, com auxílio não só da linha limítrofe, mas da cor de preenchimento, o fechamento do vetor que pode resultar num espaço para que o baldinho possa ser aplicado com segurança e sem segredos. Essa técnica facilita o encerramento do território e a descrição da paisagem, mas para o terceiro "personagem" deste texto, isto não se aplica.

Permitam-me inverter a ordem das definições, agora pareceu-me mais correto colocar um hífen e compor as palavras território-paisagem e sendo um termo composto, uma evolução que a língua portuguesa permite, a soma dessas duas palavras não anula o significado isolado das duas. O território continua sendo território e a paisagem continua sendo paisagem, porém coexistem, como um casal, unidos em uma só carne pela aliança do hífen que lhes dota novo sentido.

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Porém dentro desse território-paisagem o hífen também é o terceiro elemento quase invisível, que poderia ser um espaço clicado ou digitado, um vazio, mas não, é um tronco abatido, um "L" minúsculo que foi decepado pelas raízes porém não ficou rebaixado ao papel de "underline" como dizem os letrados em inglês, inglesmólogos, é sim um tronco que levita, um pequeno milagre, quando a palavra pequeno não condiz com a palavra milagre.

Um dos maiores defeitos da literatura contemporânea é que ela é ou muito certeira ou muito perdida, não existe uma dosagem doentia e sim uma dosagem errante. Quando digo "literatura contemporânea" encaixo-me nesse mal agouro de catalogação editorial. Às vezes me pego errando nas vírgulas, um erro tão infantil quanto mascar chiclete e colar debaixo do banco do ônibus. Me pego pensando num sinônimo tão óbvio que acabo apagando uma frase inteira somente para poder utilizar uma expressão como "meu minino troxa" porque a ouvi de um cearense mal humorado que explodiu na fila de um caixa de supermercado. Claro que esses caprichos fazem parte da mente e não da cabeça. A mente procura manter o texto tão fluido, mesmo que ele se torne numa torrente voluptuosa que causa imensa erosão às margens e às vezes inunda vilas por conta do rompimento dos diques, destrói pontes e afoga crianças que não chegaram a idade de saber o que é mentir. Já a cabeça é o mecanismo de vazão dessa água, todo o aparato que faz a água nascer do chão, vir por meio de chuva ou derreter-se do cume das montanhas. O sentido é o seguinte: se a cabeça está bem, a mente vai bem, flui sem descontrole, como aquelas águas de fontes decorativas, mecanizadas, que seguem o processo todo sem muita mudança. Mas cabe então a mente desafiar esse controle e de repente derrubar meia dúzia de árvores e invadir uma porção de lotes para já dar à cabeça uma dor que não vai ser tão fácil resolver e que por motivos racionais e produtivos tomamos uma poção mágica que coloca a dor da cabeça em sossego, oculta atrás da cortina, na reserva da coxia bagunçada, apenas para que não a vejamos.

09032015

Para ser um pouco mais racional e strictu-sensu, deixando um pouco o ranço do realismo mágico da América latina, conto minha sensação ao ver uma sequência interminável de dunas no Ceará. Não que eu tenho viajado à turismo, longe disso, vim acompanhar minha mãe e servir de modo ambíguo, como jegue de carga e ser também a própria carga. Mesmo que essa viagem marcada numa última hora como se fizesse parte do tratamento para o episódio malogrado de quase desistência da vida tivesse como objetivo o afastamento do torpor da realidade paulistana, digo que a paisagem, neste caso, não chegou a viajar comigo, mas o território sim. Deixando o sufixo em casa, no quarto andar do prédio quase de esquina da barão de limeira, o território nem pediu licença e viajou como parasita, acompanhando a cabeça e a mente, para essa empreitada. Chegando aqui, o território necessitou arranjar seu companheiro de hífen, que apesar de levar o mesmo nome, paisagem, a própria paisagem era diferente, pois a paisagem sempre muda.  Chegando um dia a pegar a estrada, o vento vindo do mar sacudiu o carro com tal força e fez com que a fresta na janela assobiasse. Mesmo não sendo expert em assobios da natureza, ainda mais os assobios de ventos cearenses, lancei à vista para o leste e vi a massa negra de chuva que chegava. Minha mãe, como de costume lançou um "que benção, chuva!". Realmente a chuva viria a cair com força minutos depois, quando ainda na estrada estávamos, mas já cruzando as dunas por meio de uma marcação rarefeita de asfalto com linhas guias. Pensei então, sem motivo algum, que cada morrinho de areia, mostrando seu pico, sendo bem definido, poderia receber um nome. Percebendo a complexidade assim como a quantidade de morrinhos de areias, o complexo das dunas seria impronunciável, ah, e outra coisa: dar nomes a morros de areias não teria utilidade nenhuma. Foi isso que me atraiu.

10032015

Do ponto onde estou vejo as dunas à mais ou menos uns trezentos metros de distância, não é uma distância enorme e é até fácil de ser percorrida, isso se o corpo não estiver preguiçoso. Mas não fui até elas, porque tudo isso faz parte de um ritual que invento na hora, deixando dogmas e regras nascidas naquele instante uma nova religião que seguirei com todo afinco até a hora que eu também decidir a desobedecer e mandar tudo à merda. Para os cultos, santos, certinhos e coxinhas em demasia, digo que a palavra "merda" é uma palavra ecologicamente correta, pois a merda pode ser utilizada para adubo, ela serve pra facilitar no crescimento das plantinhas e não se espante por ler um texto meu com tal expressão, pois ela é quase uma expressão santa, só não é tão santa porque alguém esqueceu de lhe outorgar essa santidade popular, beatificada pelos nutrientes que unidos à terra facilitam o crescimento e a produção de húmus.

As dunas nesta manhã me parecem desenhadas pelo vento. Na verdade o autor desse complexo desenho de onda petrificada em movimento, desculpe, não achei termo melhor neste caso, é o vento. Nota-se a complexidade dos ventos vindos do mar em tal direção, que com a construção das cidades esse mesmo vento ainda assim não mudou de trajeto mas continua no seu incessante trabalho de manter o itinerário mais ou menos casual. Por conta da areia ter essa finura de grãos que quando secos podem ser comparados ao sal refinado, por milagres da natureza, as dunas começaram a existir, não só por causa do vento, mas pela desunião das partes de um só continente, como era o mundo terrestre. Sabe-se que as placas tectônicas muito tem a ver com isso, mas como essa praia se transformou num deserto quase verde que aos olhos humanos seria de dimensão exata para o lazer e o descanso não se sabe ao certo. Falta-me muita sabedoria geológica. O que sinto é que se perdeu a maravilha de perceber por que a areia é clara ou mais clara que o normal dependendo da geografia, mas não é isso que mais me perturba e sim como é que ela foi parar no alto subindo um morro de mais ou menos trinta metros de diferença em relação ao mar. Os geólogos saberiam explicar com ênfase este causo, mas como não encontrei um geólogo hoje aqui nas redondezas e também me deu preguiça de procurar por esse fenômeno que desde já não é bem um fenômeno, prefiro desenhar em minha cabeça que uma somatória de circunstâncias, entre vento, climatologia e mandingas oceânicas, colocaram as dunas onde estão, na altura onde estão.

A areia já foi fonte de inspiração para todas as artes, desde pinturas até fotografias e nos filmes. Até naquela arte mais popular, que passa na televisão com constância, chamada novela. Na literatura, Jorge Amado escreveu os capitães de areia e pelo que me lembre é um relato belíssimo mas não é a única obra de literatura que tenha um relacionamento com a areia. Por hora essa é a que me chega às mãos. Outro ponto não muito distante das artes é na própria construção e a areia segue como mistura para erguer impávida a nova capital brasileira, Brasília, onde o concreto armado só conseguiu sua esbeltez por causa da medida exata de mistura, erguendo palácios no meio do nada. Essa areia está dentro das paredes das casas, aquelas que seguiram esse padrão de construção, dentro dos edifícios de poder, dos edifícios de vigilância e outros derivados, mas voltemos às dunas, que é outro tipo de construção.

De longe as dunas pareciam lugarejos inacessíveis, cuja topografia era proposital para que houvesse uma fortaleza em seu território. Desde minha linha de visão havia primeiro um longo vale onde a vegetação conseguia prender-se sem trabalho. Cactos e arbustos de verde escuro se prolongavam por essa extensão até o primeiro morrete de areia que não deveria passar de dois metros de altura. Esse vale não deveria ser de todo plano, mas possuía um leve declive até a cota onde eu estava, por força da perspectiva deu pra concluir este fato. Aliás, meu olho, mesmo sofrendo de problemas físicos como astigmatismo e miopia, com auxílio de lentes de correção surfaçadas e adaptadas à minha deficiência, conseguia desenhar mentalmente as linhas paralelas que se perdiam num possível ponto imaginário de fuga que procurei achar no horizonte. Antevi uma coisa interessante, mentalmente a cabeça colaborava com a construção dessas linhas imaginárias. Por força da imaginação, assim como a convenção clara que Sartre já presenteou nesta terra com o texto explícito e direto "sobre a imaginação", a mente no território da cabeça conseguiu comunicar-se claramente interpretando os dados vistos e espelhados que a própria cabeça produzia. Falo que a mente interpretou, pois imagino que esta seja a tarefa da mente já que a cabeça não se perde nesses devaneios. A cabeça apenas se encarregou de receber a imagem de forma bruta à partir dos olhos que por si só não enxergam perfeitamente a não ser na distância de um palmo e um palmo pequeno com os dedos fechados. Poderiam acontecer alguns erros de comunicação entre os olhos e a cabeça, mas não me lembro, também, como me lembraria?

O vale estava vazio de pessoas, nenhuma por lá, mesmo que as dunas tenham sua atração turística exacerbada, mas existem dunas e dunas, assim como existem pessoas e pessoas, seja lá o que for dizer essa repetição dos termos, um anulando o outro, ou um sendo o oposto do outro. Minha mente imaginou, usando como base o material recebido e processado pela cabeça, minha escala humana nessa paisagem, tirando como partido a dimensão de uma possível árvore e fazendo uso da perspectiva. Vendo minha escala na paisagem, senti também o complexo desejo de implantar por ali uma casa, minha casa. Me questiono o porquê de querer colocar justamente uma casa que seria minha naquela paisagem. Sei que a paisagem me atrai e a casa ficaria bonita naquele vale, como comprovei quando a mente realizou mais uma mostra dos seus serviços e implantou um projeto suposto de uma casa sobre a paisagem real. Em seguida, pude com mais confiança também interpretar a ideia que minha mente, fazendo uso do complexo banco de dados da cabeça, tinha gerado. Buscando qualquer superfície onde pudesse desenhar essa ideia, a mente inspirada nessa epifania chamada pela língua inglesa de "insight" conseguiu encaminhar as mãos para a intenção, mesmo que ela não pudesse ser exatamente como imaginado, pois está mais que claro que toda ideia necessita ser importada para o ambiente físico e real para conseguir ser realizada. Para isso o instrumento que eu tinha em mãos era uma caneta esferográfica e alguns papéis.

11032015

Como meu ofício oficial, desculpem-me pela redundância, é o de arquiteto e não só isso, o de arquiteto e urbanista, escrevo com o mecanismo racional e artístico. Coloco em contraponto ao lado racional o lado artístico, pois como definições contrárias elas se complementam, como na biologia o androceu e gineceu e cabe a vocês escolherem qual é qual. Porém dentro dessa profissão do arquiteto urbanista, outorgada por um diploma que tem como base o histórico escolar, existe também o peso de uma matéria chamada "paisagismo" que poderia até estar incluso no nome da profissão, porém acho que por preguiça ou por rechaço a nomes longos não aparece no título profissional o nome "arquiteto urbanista paisagista".

Não aconteceu em minha formação de ensino superior, expressão que combato com força pois nenhum ensino pode ser mais superior que outro ensino e muitos podem comprová-lo basta passar os olhos em textos pedagógicos de grande valia onde muitos autores brasileiros já se debruçaram, entre eles Gilberto Freire, Luis Câmara Cascudo entre outros, uma atenção importante à matéria de paisagismo. Parece que essa matéria é um hiato, ou um espaço entre a arquitetura e o urbanismo. Mesmo tendo como brasileiro um artista da paisagem o falecido Burle Marx, tal atenção ao paisagismo ficou jogada em escanteio, ou pior ainda, é colocada no banco de reserva ou às vezes nem é convocada para o jogo complexo que é essa profissão. De uma maneira ou de outra ela se encontra na excentricidade da profissão que quer fazer tudo, pois a profissão do arquiteto urbanista permite uma multidisciplinaridade que chega a ofender as leis do "ensino superior", por isso talvez o paisagismo consta mais nos cursos de pós-graduação, do que no tratamento sério no âmbito da graduação. É lamentável estar num país cuja cultura e biodiversidade se entrelaçam de forma espantosa e ver que poucas das muitíssimas universidades que nascem nesta terra brasilis não pontuem sua importância. Poucos alunos reconhecem qual é a árvore símbolo do Nordeste, ou qual é o tipo de vegetação que ficaria melhor numa casa de praia, usam um nome genérico: "árvore" e os mais atentos se aventuram a colocar uma especificidade um pouco maior "palmeira" como se limitasse a isso e só.

Me dei conta desta loucura quando visitei estas dunas. Percebi quantas espécies existem entre o sertão e o litoral do Nordeste e pareceu-me que mesmo com três anos de formado eu não tenha aprendido nada sobre paisagismo. Vinculado ao estudo do paisagismo, também me pareceu de grande importância a visitação à cultura, pois antes de sermos descobertos como nação, já aqui estavam os espécimes que hoje catalogamos como mato, verde, vegetação, maciço arbóreo (para aqueles que gostam de generalizar mas não querem parecer pobres de vocabulário). Não é a obrigação do ser humano, do homo-sapiens, saber tudo, mas se a profissão escolhida é a de arquitetura e urbanismo o mínimo de complacência com relação à honra profissional reside na curiosidade em saber até onde essa profissão se estende e em que possíveis áreas ela se expandiu ou irá se expandir. Porém o arquiteto urbanista de hoje, formado em terras latinas, especificamente dentro do território brasileiro e mais precisamente no contexto paulista, do qual faço parte, ele é um ser confuso e não tem tempo pra porra nenhuma. Temos mais de sessenta faculdades de arquitetura e urbanismo no estado de São Paulo, temos uma onda varrida, um tsunami desesperado de novos profissionais que estão se formando em grades tão presas sem a liberdade de expressão, sendo submetidas a possibilidades de mercado e não a evidência dos aspectos necessários de formação. Arquitetos urbanistas que se formam e caminham lentamente para a escravidão tanto da cabeça quanto da mente. Subjugados a um contexto sem a oportunidade por causa do desânimo de revidar o tapa constante que a realidade anda dando, somos constrangidos pela situação atual. Me vejo então obrigado pela minha mente a citar Santo Agostinho e o que ele afirmou no seu complexo livro "Confissões": "para aprender é mais eficaz a livre curiosidade do que um constrangimento ameaçador".

"Constrangimento ameaçador": entenda-se a autoridade, que na época de Santo Agostinho eram os pais e mestres, e o estado, claro, de certo modo, com disciplinas severas para os filhos/alunos que não se dedicavam aos estudos. O próprio Santo Agostinho teve essa experiência marcada à ferro e fogo. Conversando com o Lucas Lavecchia em incontáveis diálogos sintetizamos que não é um erro da educação universitária ou desse tal ensino superior, mas sim um caso doentio do esquema como é feito o ensino inferior, que na verdade é o ensino fundamental e primário. Por contextos sociais e culturais muitos alunos ingressam na universidade desafiando a dança perigosa da realidade e dão a volta por cima. Falo de alunos da rede pública de ensino que mesmo não tendo os bolsos cheios de reais conseguiram ingressar em qualquer universidade e muitos deles escolheram a arquitetura e urbanismo. No outro extremo existem alunos que fazem parte de escolas consideradas boas dentro de um padrão de aprovação, com grades horárias complexas, ensinos com conteúdo condizente e placares de concorrência, criando alunos gênios, filhos de pais que também já foram alunos gênios e mantém a perspicácia de serem os melhores. Existem inúmeras escolas assim no Brasil, dedicadas a formar os melhores alunos, alunos moldados para passar em cursos como medicina cuja faixa de corte em universidades públicas e privadas costumam ser das mais difíceis. "Okay", nenhuma novidade.

13042015

Porque então sou perturbado com essa discrepância? Existe uma diferença enorme entre esses dois tipos de alunos que ingressam nos cursos universitários. Primeiro a sociedade joga de forma massiva no rosto dos "meninos e meninas" que para ser alguém, hoje, somente se tiver uma formação de "ensino superior". Segundo: como conseqüência desse tapa doloroso ocorre uma disputa homérica para se preparar para o futuro, mesmo que muitos não tenham parado para refletir o significado da palavra futuro. Medo do futuro poderia ser uma das interpretações contemporâneas para o significado da palavra "amanhã". Terceiro: falando especificamente para futuros arquitetos urbanistas, entendendo que o curso trabalha com projetos, cuja base da palavra é "projétil" o que quer dizer, lançamento de algo mirando um alvo, é de se saber que trabalhamos com o hoje e o amanhã tendo como base a história. Porém, somos um país novinho, com pouco mais de quinhentos anos, o curso de arquitetura e urbanismo também é relativamente novo, como quase tudo neste país, menos o território. Temos todas as desculpas plausíveis para justificar essa falha em "acertar o alvo" e gostamos de achar o culpado e cada vez mais se culpa o ensino. Muitos dizem que é culpa da colonização portuguesa, eu digo que é uma certa forma de “benção”, outros dizem que é culpa da bagunça generalizada no país inteiro, eu não discordo, eu gosto dessa bagunça, nada melhor do que entender uma bagunça e saber os motivos reais para que essa bagunça esteja acontecendo até hoje, professores acadêmicos elogiam o método de ensino e trabalho alemão, inglês, espanhol, norte americano, argentino, japonês e novamente "okay", temos muito a aprender com eles, mas temos um pouco deles neste complexo centro cultural pulsante que é o território brasileiro.

Desde o começo da nossa história como nação temos a mixofilía como anfitriã para os imigrantes. Por causa da mixofilía, diferentes pontos de vista vem sendo formados e irão se formar com o decorrer do tempo construindo a identidade dos habitantes do território brasileiro. Para os que já estão no curso de arquitetura e urbanismo a algum tempo ou já estão até mesmo formados, sabe-se que muito da arquitetura brasileira de renome (ui, "renome") se deve ao modernismo, que ainda existe como sombra, como ressaca e ranço de tempos passados. Não há nenhuma dúvida que temos até hoje profissionais, principalmente escritórios e coletivos, que fazem boa arquitetura dentro dos moldes projetuais modernistas. Esse debate tem se prolongado em diversos modos e plataformas, desde encontros regionais de estudantes até plataformas digitais como o VITRUVIUS e derivados, teses tentam entender esse fenômeno (leia a palavra fenômeno em tom irônico, estritamente), porém o método de ensino com base modernista se encontra numa fragilidade irracional. O modernismo é pregado como religião, o pós-modernismo como cânone herege, seita perigosa e o estrelismo. a egotrip, como necessidade vital.

Futuros arquitetos urbanistas e arquitetos urbanistas já "formados", desde os mais céticos e descrentes, até os eremitas veementes, seguidores ortodoxos dos mandamentos arquitetônicos, quantos estão satisfeitos com seu trabalho? Quando digo trabalho não é somente o produto final, mas considerem também o processo, desde o processo de aprendizado até a etapa final de um projeto. Um professor meu, humanista, dizia uma frase que provavelmente não era dele: "projeto não se finaliza, se abandona". Em que etapa temos abandonado esses projeteis-projeto? Terão atingido o alvo? Esse alvo não é o alvo do entorno e contexto, não é a nota final, não é o projeto construído finalizado, mas sim a satisfação pessoal como profissional na realização desse projeto. Desde infantes deveríamos ter aprendido (sarcasmo, indubitavelmente) que temos que fazer coisas que não gostamos para aprender mais, na ideia de avançar e evoluir. Claro, sei que não dá pra fazer sempre o que se gosta, é necessário "ganhar o pão", mas porque raios não podemos ganhar o pão de modo prazeroso?

03052015

Antes que esse texto se torne um texto de auto-ajuda e orientação, não deixo escapar o veredicto que meu orientador do trabalho de conclusão de curso, Minoru Naruto, me disse: "não vou te orientar, vou te desorientar". Se o trajeto ao Oriente, que pode ser também para alguns o "norte", me fez voltar ao lado "sul" da coisa, onde o sol paulistano pouco consegue aquecer com carinho e ainda me faz voltar para uma simples paisagem, como esta, das dunas, onde imaginei uma casa e prontamente, pela obrigação petulante da mente, comecei a rabiscar num papel o fruto da imaginação, porque tenho que seguir esses métodos não prazerosos de trabalho?

Faz mais ou menos dois anos que faço parte de um estúdio que formei com dois colegas de faculdade e que recentemente mais um companheiro de labuta se juntou à sociedade. Dentro da pluralidade do estúdio já fizemos de tudo o que se pode imaginar, desde PowerPoint para palestras internacionais de um grupo de psicólogos especializados em tratamento de autismo em crianças até os setenta e dois meses de vida, até direção de arte para editorial de moda cafona, desde proposta de plano urbanístico para a prefeitura de São Paulo, até concurso de centro cultural no Afeganistão. Uma bagunça. Querendo ou não a gente se acha nessa bagunça mesmo quando se parece aqueles programas americanos "acumuladores". Tem época de boas vacas gordas, que permite pagar as contas, ir em restaurante bom e até abre chances para viajar para um destino interessante, mas tem época de vacas raquíticas, esbeltas ao extremo, onde não se vai a restaurantes, mal se paga as contas e a única viagem que acontece é do banheiro à mesa de trabalho, no máximo à calçada ou ao mercadinho da esquina. Isso obrigou aos sócios procurar alternativas de trabalho, fazendo trabalhar em empresas, procurando um pouco de mais firmeza na vida, afinal, tem que ser louco o bastante ou ter dinheiro na conta pra se arriscar a fazer somente o que se gosta.

04052015

Eu fui durante muito tempo funcionário inserido no esquema burocrático de trabalho, com carteira assinada, férias remuneradas, inúmeros benefícios, assim como já fui funcionário fantasma, nada de registro, trabalho estafante, carga horária remissiva e reconhecimento zero. Mas esse acúmulo de experiências, que não são muitas se considerarmos que tenho apenas 25 anos e três anos de formado, ajudam a ver o andar da carruagem, se ela pode parecer interessante ou apenas mais um fracasso. Sobre fracasso prefiro a visão do Abujamra, que diz que tanto o fracasso quanto o sucesso são impostores e concordo inteiramente com ele sobre isso, pois existe sempre um “preço à pagar” tanto sobre o sucesso quanto pelo fracasso. Posso dizer que em certa escala tive sucessos, assim como tive fracassos, mas sou um ser humano mediano, se me entendem, que não teve grandes situações na vida que merecessem estar registrados em anais, nem ganhei rios de dinheiro em projetos aplaudidos pela crítica, nem ao menos tive uma publicação em alguma revista de arquitetura de renome. Ferre-se, afinal, isso não é a minha visão de sucesso. A visão de sucesso pode ser obtida à partir de um senso comum, gosto popular, modismo, mas o sucesso é individual se você souber o que é sucesso pra você mesmo. Assim como o fracasso. Minha vida de sucesso era quando eu podia dizer as merdas que eu pensava sobre tal projeto, podia rabiscar nos projetos em meio uma reunião provando que o projeto sim daria certo, ou estando sentado numa palestra absorvendo tudo que o Ciriani, Wisnik ou Fábio Mariz diziam e eu escrevia, rascunhava, tentava registrar todas as minhas óticas e entrevistas sobre o que se me apresentava. O sucesso é para mim o processo e o fracasso faz parte do processo, então posso afirmar que tanto o sucesso quanto fracasso fazem parte do processo e sem o processo não há nada, absolutamente nada.

05052015

Talvez seja por isso que talvez eu não possa ser um arquiteto urbanista no seu sentido completo, já que gosto mais do processo do que o mandatário absoluto e o grito de “finalizei”, “terminei”, “tá pronto”.

Esta situação è claramente vista com minha posição dentro do estúdio hiperativo do qual faço parte. Ultimamente o constante desgosto pela arquitetura e pelo urbanismo tem aparecido como um fantasma implacável que me persegue em meio os papéis em branco. Quantos sonhos foram nutridos pela vontade de seguir em frente de acordo com um tal ideal arquitetônico. Contudo não culpo a arquitetura e suas diferentes matérias envolvidas pelo desgosto. Penso que na construção tanto da vontade de trabalhar em meio à crise de identidade coletiva e na busca pelos mananciais da criatividade, algumas bromas da vida possam acontecer. Isso me preocupa, pois meu desempenho singular como arquiteto está reduzido a níveis piores que o da cantareira, mas não é um motivo de extrema tristeza, é algo que faz parar e pensar. Pensar como meu trabalho individual pode ser somado à coletividade de um espaço livre de pensamento. Creio que uma crise existencial coletiva faz parte do processo e é difícil passar por essa crise sem estabelecer limites de loucura aceitáveis aos companheiros de labuta.

07052015

Escrevo escutando a sétima sinfonia de Mahler e mesmo aproveitando-me de um texto que não escrevi para o estúdio, remendo-o e crio uma extensão do pensamento que estamos vivendo. Permitam-me dar voltas repetidas e a cometer pleonasmos sem padrão.

No nosso círculo vicioso de contravenção profissional, talvez o caminho seja ir adiante das medidas conciliadoras entre o grupo. Minha dedicação epistêmica é malograda mas ainda existe. Somos nós os responsáveis pela construção da complexa ponte entre o que temos e o que queremos. Como essa dedicação de construção constante pode acontecer, eu não sei, mas talvez traçar um plano de metas e sonhos possíveis, dizendo que o estúdio é um espaço livre de ressentimentos com relação ao passado e desenhar com mais atenção o que cada um como indivíduo quer, talvez seja a melhor solução, se existe alguma solução.

Este mesmo texto longo, é uma mostra do processo que deveríamos talvez traçar, sem a pressa da data, com a calma do ócio, mas com a precisão da intenção.

O tempo para o estúdio não pode ser linear, isso é invenção das horas de trabalho, ele tem que ser onduloso, quase uma mancha, uma borbulha. Talvez devêssemos fazer o tempo explodir em fragmentos que reconstruir o estúdio com base nos mosaicos de tempo.

25102017

Li este texto que escrevi em 2015 neste dia. Não faz tanto tempo assim. O estúdio hiperativo não existe mais. Houve um desentendimento e uma insatisfação enorme da minha parte, como uma criança birrenta que ainda não aprendeu a se comunicar e torna-se violenta, ameaçadora. Sem perceber ataquei o estúdio com a mesma intensidade com a que me ataco. Brigamos, de certo modo, todos os sócios e a rachadura se deu de maneira esgotadora. É o que resta. Restam as dunas dos sucessos e dos fracassos.

Hoje, longe da arquitetura e do urbanismo, trabalho em uma ONG. Apesar disso, o processo criativo ainda existe de uma forma ideal. Ele não se desmanchou com o tempo. Me custa é fazer acreditar o quanto desse território me ocupa a cabeça. A mente me mente. Olha só, os trocadilhos terríveis também não pararam no tempo, continuam como nunca, cada vez mais tiozões. Essa recapitulação precoce é maravilhosa e não trás nada mais que um prazer de leitura, não uma realização enriquecedora. “É processo” e é isso que estou dizendo pra mim, pra melhorar o tom.

Ainda me lembro do projeto idealizado pelo histórico mental que me levou a rabiscar uma casa das dunas. Me lembrou que tenho que fugir, fugir pra esse lugar dentro do território mental. Estou esgotado do trabalho, mas a paisagem ainda existe, na mente. Agora sou cabeça careca e cabeça dura. Me falta o ar do mar. a paisagem do mar e as dunas, tudo junto, aqui, nesse território paulistano cheio de muralhas ideológicas que têm obstruído o olhar para o ponto de fuga que é o futuro.


quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Os intervalos e respiros

Com certeza não sou um pianista bom. No ano de 2002 estudei violão erudito na ULM (Universidade Livre de Música) e peguei um desgosto enorme pela partitura, essa leitura musical que procura encaminhar os modos de tocar o que autor/compositor deseja da forma correta. O piano da casa da vó materna era algo imperioso, tocava lá de vez em quando, pra tirar uma coisa ou outra. Música era algo mais divertido do que obrigatório.

O violão foi minha âncora. Seja porque me ative tanto à mente das meninas que na adolescência eu me apaixonava ou as músicas cristãs que compunha em acordes básicos pra registrar minha culpa e dar de presente para amigos, fazer encarte na mão, tudo na mão e pela mão, haja mão, haja coração na mão, coração fraco na mão. Gravava em fitas cassetes, porque eu precisava sentir, ler, entender e me ouvir depois, ver a coisa acontecer. Depois comecei a gravar naqueles aparelhos de MP3, fazer CD, tudo de uma maneira bem simples, meio tosca, meio minha demais, sem quase nenhuma pretensão. Fiquei no limbo de um trabalho amador que gostava de fazer, com inúmeros erros, mas com intensidade. 

Voltei a estudar piano com "força" em dezembro de 2016. Fui convidado pra participar da banda Mokassin, entrei com o teclado, sintetizadores, samplers, backing, etc. Essa força do estudo também se juntou com a raiva por não saber bem algumas coisas relacionadas ao mundo da música. Maldita a hora que odiei estudar partitura. O piano me abria um panorama que a guitarra ou o baixo elétrico não me abriam. Então me forcei a improvisar como também fazia com o violão ou com a guitarra, sem ver muito o produto redondo no final, mas mesmo assim registrando-o. Isso só foi possível por conta dos intervalos no local onde trabalho, a ONG Instituto Hatus, onde há um velho piano lichtner, um bocado desafinado, mas funcionando. 

Eis aqui as primeiras gravações que aos poucos irei registrando e colocando no mundo, porque se fico apenas guardando esse material também tosco, mas visceral, mal feito, mas real, pra mim é a coisa mais irracional possível. Não são coisas admiráveis, são ensaios de improvisação, descontos da felicidade e da raiva, são intervalos puramente necessários pra deixar as mãos livres pra que depois eu mesmo possa me ver trabalhando com outras coisas. Um modo de tirar correntes que já foram postas diante da realidade de um mundo depressa e com um senso de dor interna que fica difícil explicar, bem difícil, então é mais fácil dizer pela música. 

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

a fumaça e a grande palavra

"você deveria parar de fumar". uma, duas, três, quatro vezes. é lógico que as pessoas vão pensar dessa maneira. é óbvio que fumar causa câncer, mata, perturba, desaba o fôlego. desde as imagens nas costas dos maços, boxes, o tal sofrimento, gangrena, misture isso ao coquetel dessa depressão à vácuo que fica enquanto se espera o farol abrir para os pedestres e um ônibus passa correndo pela via, deixando aquele espaço de lembrança cravado num silêncio rápido, com um intervalo que nem parece uma pausa enquanto a mente trabalha no processamento da imagem do sexo entre eu-você-ela e não só no sexo, mas no sexto sentido que é o afeto e o cuidado. cigarro não é cuidado, mal feito, sem exemplo. é que eu tenho esperado demais. o quê? nada. "você deveria, ao menos, tentar parar". parar. sossega, pra quê essa pressa? acalma. novamente venho escrever esses termos que procuram tranquilizar a alma. calma tem alma no meio. que meio? a metade de mim gostaria de ser tão saudável até pra se tornar eterno, mas eternidade, tá difícil acreditar nessa síncope. na verdade é melhor pra eles, sempre é melhor pra eles que você pare de fumar. é um vício bem popularizado e legal, em todos os sentidos, por conta disso, um pouco mais odiado comumente. mas é só um cigarro. não é só um cigarro, é o cheiro da fumaça, são os reais gastos que não voltam, desperdício. o cigarro apaga o dinheiro. o ocê acha que eu não sei disso? "mas é melhor pra você". pra mim, pode até ser mesmo, pensando bem, deve ser bem melhor, olha só a saúde física em seu estado de sítio. a saúde psicológica não é também uma saúde física? cê tá é falando merda. procura também não falar tanto palavrão que isso ofende o exemplo. crianças vão aprender contigo a fumar, a ser torpe, desviado. testemunho. não é isso o que se quer para o mundo. olha pra tua família, eles não são assim, quem  é assim? quem sou eu desse jeito? "pensa que estamos querendo te ajudar". de boa vontade. é verdade. eu vejo. é muito cuidado, percebo isso também, é que eu não sei agradecer essa bondade incomensurável que é despejada de enormes caçambas que são essas tuas mãos. eu deveria contar menos de mim, eu deveria conter mais de mim e não ficar compartilhando o tanto que reservo debaixo do solo da alma, mas quando suprimo isso expelindo as fumaças desvio mais uma criança de um futuro promissor, porque os pais vão ver que é mais um terrorista das morais estabelecidas por um estado de direito bem regulamentado. você é a instituição. representa. ok. cala boca que eu estou falando. respeito. e nisso, talvez, o batismo, as águas que já ficaram pra trás e o nascimento, também, serviram para mais um título de peso, do que fui preparado pra ser mas não consegui. é que eu confundo as coisas. não é só isso. tem mais. mas não é mais informação relevante, é o chão que se abre, é a multidão que caminha muito rápido, é o mito do prazer no trabalho. muito prazer, meu nome é cansaço. "assim as pessoas vão pensar algo que não é verdade sobre você". já acontece isso, misericórdia, pelamor, xita matrica (o esforço de inventar meu palavrão oculto desde 2006), é que sinto tanto e tanto muito na flor dessa pele escamada e ressecada em micro regiões imperceptíveis, que se escorre em suor nos piores momentos e se mantem velha por conta das cinzas que se apegam a esses pelos longos. mas tudo bem. se insere nessa minha vida furada e tenta não vazar. mas não vem com esse dedo imundo falar o que eu deveria saber, porque eu sei o quanto devo me cuidar para não desmoronar. "não se expõem". onde vou ser eu? onde vou falar-me e ouvir-me, se já no íntimo falo demais mas não me escuto. é um reforço. por favor, alguém conecta o retorno? mas há sempre essa mão dura que acarícia. não é a falta de percepção, é a falta de análise. se quer um desenvolvimento rápido do que perturbar, para que isso não perturbe mais, mas não confunde, isso mesmo "não confunde que não é bem por aí". é por onde? por onde você sempre quer? é o caminho discursivo onde não é tão fácil ouvir os gestos, porque talvez seja isso que tem que acontecer, sendo que sempre me coloco no papel perturbador do outro lado. não sempre. erro demais. caguei. xita matrica. perdição. mas é uma tentativa que pode sim ser considerada como uma resolução completa mas hei de ouvir que o cigarro me matou se eu não parar e fico até imaginando se por ventura der uma pausa nesse vício e por ventura cair novamente, como o ciclo pecaminoso da vida, haverá sempre outra lança encaminhada, outra corda que serviria de guia mas só faz o seu papel de forca e não de força. "você não entendeu o que eu disse". nunca entendi porque também não entendo você. só que não suporto o poder exercido por você sobre mim, dentro ou fora de qualquer instituição, apenas poderíamos relembrar as luzes que o respeito uma vez lançou, quando se apresenta o fator de ser apenas pessoas que não se conhecem. mas tudo é poder. tudo é mandato. agora não posso descer pra fumar um cigarro. agora não posso falar as grandes palavras que pra mim tem mais peso sonoro do que significado. eu era bom. éramos bons. somos bons, calados e se respirar. 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

assobio

por mais que se façam operetas e sonatas, concertos truncados com semicolcheias e fusas seguindo quase a benção iracunda do mateo carcassi sendo tocada pelo violeiro erudito que com treze anos  mandou o regente da carreata dos violões à merda, nada, literalmente nada, substituirá o pequeno grande ato de assobiar duas, quando muito três notas pela manhã, ao acordar.

era quase um alarme e se repetiu por três vezes seguidas, algo mítico, como o galo que denuncia o apóstolo Pedro da sua traição ou mais comum, como bater três vezes na porta para avisar que chegamos, coisa que ela nunca fez, porque geralmente deixava a porta aberta já sabendo que ela viria, pois ela mesmo me avisava com antecedência e nunca bateu na porta de surpresa.

acordava com um espetacular bom humor quando sentia o cheiro de café vindo da cozinha apertada, passando pela sala, um espaço hibrido,  misto de ateliê com biblioteca, com uma poltrona meio rasgada e bambolente, celuloses mil pairando sem tempo no chão, na mesa, nas estantes, vazias ou rabiscadas, entornadas, amassadas e amansadas para serem revisadas em algum texto linguagem no futuro, mosaico de verbos e conjugações. após sorver o café ainda na cama, levantava com o torço nu, fazia carinho nos papéis e ia ao banheiro. Nesta hora assobiava, ao se desfazer dos líquidos interiores e depois começar a higiene, que demorava, culminando numa decoração exata das bochechas, dos lábios, dos olhos, se livrando de uma fez por todas a aparência que temos todos em comum ao despertar de uma noite de sono onde os corpos se assaltam em ríspidos encontros de necessidade e cheiros de vontade.

não fazia nenhum mal saber que ela se despediria em um contato rápido com as minhas mãos, um aperto na cintura e um olhar de canto, fechando a porta, deixando balançar o chaveiro imenso  pendurado na porta. o mal era saber que o assobio ainda iria perdurar pelo banheiro, depois pela sala, sem ser abafado, iria penetrar meu quarto e enquanto me trocasse de roupa e resolvesse mergulhar novamente dentro do revoltoso mar sólido do mundo das artes, ele iria estar lá, cíclico, até me fazer sair do apartamento, descer as escadas e ir distrair os olhos e o bolso numa cafeteria imunda onde o mesmo homem velho tomava uns "paratudo" até confundir democracia com liberdade e amor com ideologia. depois de ouvir o bêbado declarar algumas músicas do meio-centro, iria comprar granola e leite, itens que mantem o costume de enganar, ludibriar e tiram o meu apetite receoso pois tem a combinação precisa de saúde com custo-benefício. faço disso meu almoço, meu lanche da tarde, minha janta, minha ceia e já beirando a correnteza da madrugada, sinto vontade de gorfar esses grãos já triturados, brancos e inchados, mas me perco num e-mail, numa foto da queiroz, numa nota do coetzee, numa ilustração do pê augusto e novamente, quando decido lavar os dentes para sossegar os olhos na cama olhando as estrelas que fingem existir no teto, sou admoestado pelo silvo lento que ela fez questão de ecoar pela manhã.

nessa hora, me levanto com pressa e de cuecas sento em frente a escrivaninha, boto papel limpo, pego caneta, pego lápis de cor, um pincel, aquelas tintas velhas que estão quase secas. não sei o que fazer, olho o violão, pego ele também. fico com tudo disposto pra trabalhar num real propósito de tirar aquele mantra que reverbera no recinto. desisto de tudo e lembro que posso substituir a melodia por outra e me condeno por não ter pensado nisso antes. o concerto de paris do keith, o piano, aquele eco do hall, subtraio, quando percebo que são duas e depois três notas, devidamente em sequência, alinhadas no seu tempo, tempo esse que desconheço o compasso por conta da minha imbecilidade se tratando de partituras ou a tal música escrita. as mesmas notas que saíram dessa fresta dos lábios dela, sem a intenção de me afetarem, porque ela não faria isso com intenção, ela nem conhece keith, ela conhece e gosta de outras coisas, gosta da popularidade-indie, mas precisamente reproduz um ínfimo do concerto de paris e na escura madrugada de verão chuvoso, sem ela na cama, sem ela nas paredes, sem ela no papel, na escuta, no corpo, sobra o que ela fez pra me desconcertar e me deixar num estado puro de inanição. maravilhoso.

mando uma mensagem pra ela. "não vai dar mais". ela não responde, visualiza, não responde. percebo que agi como um trouxa. isso. ela responde pela manhã, quando as olheiras já estão bem fundas, que se transformaram nos próprios olhos e surgiram dois textos incompletos que lidos de trás pra frente fazem mais sentido que os comerciais da tevê. jogo fora os textos, escuto mais uma vez o concerto de paris, escovo os dentes e deito na cama aliviado de ter perdido a chance de ficar quieto, pensando que era problema unicamente meu todo aquele rebuliço e que a ausência é a permanência do vazio.

ela toca a porta pontualmente, dessa vez a porta está trancada. um banho me deu ar de novo, apesar da barba continuar sendo um resquício do desleixo e da preguiça, nascendo como dá e como pode, falha, mas constante. o dia após o outro dia, a tarde após a outra tarde. chove lá fora, não chuva pesada, chuva perene. ela deixa o guarda-chuva no canto do hall, repousa uma mala de mão, pequena, marrom, de couro, no chão, dá dois passos e me ataca os ouvidos com o batom, me ataca a cintura com a cintura, me ataca a respiração com os cabelos e com as mãos amarra o meu pescoço nesse nó que somente os humanos com desejos infaláveis conseguem efetuar. ela se muda, me muda, fica do meu lado e faz questão de uma vez ou outra assobiar o mantra, mas dessa vez olhando pra mim, me dizendo com os olhos outras coisas e eu escuto o que esse assobio quer dizer. me atrevo a perder o olhar e a sorrir para as paredes, para a pia da cozinha, para os azulejos do banheiro, para as celuloses perdidas da sala, pois sei que ela agora vive nesta mesma casa.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Postura

há uma postura que tem que ser tomada, seja ela com o corpo já meio desmantelado e habituado às geringonças que facilitam a vida, seja pela consciência que muitas vezes me parece material, mas na verdade só existe no campo das ideias. vejam o exemplo do ruy: não enxerga, não vê, ele nem mais sente tanto o absurdo que faz. ele é aquele suspirinho constante, quase um zumbido, um silvo, fresta de existência que sem querer entrou e se satisfez com a capacidade que tenho de me submeter às realidades mas bem-feitas desse meu querer existir. não consigo tomar uma postura diante dele, porque a mesma me é roubada, usurpada quando ele pega as coisas e sai, mentindo pra onde vai e sendo só verdadeiro quando aparece arranhado nas narinas, sujo no peito, cavado nas mãos, escorregando a fronte em pedregulhos no lençol que deixou na cama e nem colocou pra lavar da outra vez, porque a sujeira já tá tão impregnada que ele fede a si mesmo e não sei se é um cheiro de vivência ou de morte que se assombra.

por vezes desejo o descanso, que sei que só será possível se eu fugir dessa presença onipresente que carrega nesse novo-tão-antigo-nome. me dá raiva sentir que ele se espelha na realidade que mentiu pra si me projetando nela, me fazendo ser maior que o necessário, me fazendo não ser eu pra ele e lá, de longe, fica olhando como se quisesse me imitar, mas não consegue, porque no íntimo ele sabe que esse ali não sou, não, é um "eu" que ele construiu para se projetar com mais conforto e se desafiar, mas não se desafiar tanto, somente o necessário para manter o nível da doçura áspera, da cavidade rasa, de eloquência fúnebre na especialidade comum, da moda rara, do espelho. ele gosta de se ver no esforço de se projetar numa mentira, nesse boneco de farofa e água morna, nesses pedaços de fragmentos oblíquos que somente tem sentido real se visto do seu ponto de vista, que é sempre o certo, o dele, o certo, o certo-ele. outro método de descansar é me apagar, ficar sem isso que chama e gastam por ai nas tomadas de decisão, deixar de ter luz, para deixar ele sozinho com essa projeção que com o tempo será mais um punhado de recordações distorcidas. desse modo, coitado, doente como se diz ser, verá que quem se foi era o real e que realmente - é muito orgulho - só sobrou esse espelho quebrado apontando pra baixo, para a queda.

mas ruy é apenas um exemplo do que se pode ser dentro da convivência e conivência do existir entre humanos. por isso a postura da morte precipitada, da recordação mal-dita, do presépio da morte, do calçado sem solo, das mãos sem dedos e da visão sem olhos. soma-se também ao relato a necessidade de fazer de um exemplo algo minimamente exato para que pessoalmente se aprenda a lição de que mesmo tendo a postura correta, nunca se saberá se a outra postura seria menos pior ou melhor, já que ela nunca foi tomada e não há uma diminuição de danos, há somente o rastro demarcado, essa trilha de lembrança espalhada pelo campo da vivência que mostra conscientemente que certos caminhos não levaram ao fim, eles são o próprio fim.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

um homem chamado Jesus

Soube no dia 25 de Maio de 2016, sobre o caso de uma menina que foi estuprada por 33 homens. (pausa)

Li muita coisa na internet, principalmente no facebook. Fui observando as reações de pessoas próximas: mulheres e homens, principalmente as mulheres, não com o objetivo de análise profunda, mas procurando algo, sei lá se consolo, esperança. Cheguei a escrever um texto que surgiu como uma síntese, procurando desta maneira, pela escrita, procurar entender o que acontecia, utilizando a prosa como uma faísca mínima de empatia. 

Sei que no limbo das publicações virtuais, pessoas curtem, aprovam ou rejeitam. Tenho experimentado essa tal "avaliação pública" de um grupo restrito de pessoas, pessoas do meu círculo que por muitas vezes pensam de modo semelhante e que também pensam diferente. Como tenho um interesse pela literatura, que não é disciplinado, mas sim esporádico, sou atacado também por esses ímpetos de "aprofundamento momentâneo" e já me vejo emaranhado. Sou submetido primeiro ao meu julgamento, depois ao julgamento dos outros que imprescindivelmente me afetam, porque permito que me afetem. É uma maneira de diálogo, que com o tempo foi se apresentando de uma maneira não tão saudável por causa de mim, o eu que eu mesmo possuo. 

Me deparei então, na enxurrada de informações digitais com uma simples frase que uma pessoa, mulher, que considero muito e agradeço aos céus por ter conhecido, que tem me ajudado a desconstruir muita coisa que eram pilares e certezas. Gabita (Gabriela Amorozo) escreveu em sua time line: ".existe todo um universo político dentro de cada umbigo masculino." Esta simples frase, escrita assim mesmo, entre pontos, me fez refletir ainda mais sobre o assunto. Pensei em mim e no meu umbigo. Umbigo homem, masculino, na minha necessidade de autoaprovação assim como aprovação dos outros e na decorrente vitimização que exerço, como que puxando algo pra meu lado sempre e que na maioria dos casos acaba voltando a importância das coisas para meu umbigo, apenas. 

Como coincidência, Klébão (Kléber Silva), homem, amigo, que a cada dia que passa se mantem firme na consternação, me indica contravenções e alimenta meu pensamento critico, me chamou pra conversar e assim, numa troca de áudios, compartilhamos o que nós homens poderíamos fazer mediante a realidade de um fato: o poder do homem sobre a mulher. Ele me alertou sobre o local de fala, assunto que já tinha aparecido anteriormente diversas vezes em conversas com a Gabi e debatemos sobre como o gênero masculino, tão enraizado, gerava problemáticas na hora de escrever seja um simples texto ou "literatura". Então surgiu, enquanto trabalhava exatamente num texto, o pensamento perturbador: Jesus, o filho de Deus, que veio ao mundo como homem.

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Sou cristão, cristão homem, criado por uma família matriarcal. Neto de uma avó que gerou oito filhas mulheres e adotou mais cinco, três mulheres e dois homens. Esta é a minha família por parte de mãe, que por proximidades geográficas me relaciono dia após dia, mais do que com a família do meu pai. Desta mesma família, cinco tias se casaram e em um dos casamentos o homem abandonou minha tia por causa de problemas de saúde que ela tinha e tem até hoje. A maioria de minhas tias são solteiras e "bem resolvidas" (como dizem por aí...como se houvesse algo por resolver...). Meu pai faleceu quando eu tinha seis anos e por isso posso concluir que minha educação, majoritariamente, foi através dessas mulheres. Nesse contexto de família cristã, o machismo ainda está muito entranhado. Deveria ser o contrário, mas não. Desde atitudes corriqueiras, disciplinares, até mesmo preconceituosas, minha família possui muitas falhas, mas temos com o tempo aprendido a externalizar e não guardar o que nos incomoda, a corrigir hábitos e costumes. É um processo doloroso mas que seu resultado é a felicidade  ser construída em conjunto. 

Minha mãe, missionária e voluntária, muitas vezes discutiu com líderes homens cristãos que claramente estavam exercendo  um poder que não era "divino", era o poder machista. Numa delas vi um "pastor" desrespeitar minha mãe de uma maneira tão odiosa, pelo esquema de organização dela, que é, entre a gente, impecável, coisa que eu não tenho. Eu fiquei consternado e parti na defesa de minha mãe, mas ela não precisava. Ela me impediu de falar e lacrou um sarrafo verborrágico que deixou o pastor português numa pindaíba intelectual. Deu orgulho. Mas o cara apenas exerceu seu poder acima de minha mãe, afinal ele era o presidente de uma associação onde eramos voluntários. Depois, em casa, a vi se retirar para seu quarto e chorar. Ela sofreu calada. Tive que interromper este texto  pra conversar com a minha mãe, que está longe, no Ceará, pra pedir perdão. Perdão porque foram homens, homens como eu, que dentro do seu ambiente de trabalho que há mais de vinte e sete anos é o voluntariado, missões, iniciativas de cuidado para pessoas em vulnerabilidade social, tem diminuído o trabalho de minha mãe, tem afastado ela de lideranças porque ela é mulher

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Dias atrás, terminei de ler o livrinho (porque ele é pequeneninho mesmo) da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, chamado "Sejamos todos Feministas", que é uma adaptação de sua palestra para o TEDxEuston. Foi uma dica da Gabita. Depois que finalizei a leitura, procurei o vídeo no youtube (clica aqui para o link do vídeo) que veio com a legenda completa e confesso que foi ainda mais impactante. Hoje assisti esse vídeo novamente e como está circulando com força nas redes sociais as fotos de perfil que dizem "Sou contra a cultura do estupro", uma frase da Ngozi veio a calhar: "a cultura não faz os povos, os povos fazem a cultura". Cometi um erro ao dizer num embate virtual que o estupro não é uma cultura, porque eu tenho um carinho exacerbado com a palavra "cultura", mas quando me deparei com essa afirmação de que "os povos fazem a cultura", me dei conta que sim, é uma completa verdade. O povo, do qual faço parte, trás em sua cultura o estupro, que é o poder exercido do homem sobre a mulher. Culturalmente encontramos traços tão enraizados desse poder, que a expressão "seja homem" que até pouco tempo atrás eu usava em certas situações, significa "ser valente, ser destemido", é uma maneira de perpetuar o patriarcado, de mostrar, manifestar o poder. 

A palavra "poder" significa como verbo transitivo direto, "ter a faculdade ou possibilidade de; ter força bastante para" ou como verbo intransitivo: "ter força física ou moral" ou até como intransitivo direto: "ter força, robustez, aguentar, suportar". Como homem, à partir do dia que nasci, já tenho esse traço cultural do poder, já sou uma força opressora. Não quero entrar aqui na luta de classes, que também me interessa, mas na questão de luta de gêneros, isto é real. Os homens, possuem egos tão frágeis que se ofendem mais quando uma mulher diz essa verdade pra gente do que quando um outro homem diz isso. Qualquer coisa, apontamento, crítica, pra não dizer opinião, que vem de uma mulher, tem o poder de deixar os homens realmente putos, descarrilhados, porque o homem é frágil e essa coisa que vendem nesse mercado masculino das certezas de que homem é forte, estoico, é uma mentira tamanha. Sabe porque? Porque ao tratar a mulher como inferior ao homem, o homem automaticamente procura dizer à si mesmo que ele é mais forte, o que é uma hipocrisia. Como Ngozi afirma, os homens são na maioria das vezes ser mais fortes fisicamente que as mulheres (há muitas ressalvas nisso, também, já que os homens costumam morrer primeiro), é um aspecto biológico, mas no campo do pensamento, nunca, mulheres e homens tem a mesma capacidade. 

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Retomei uma leitura de um livro que estava parado na estante. Chama-se "Hipocrisia: problemas morais e outros vícios" do autor James Spiegel, professor de Filosofia e Religião. Me deparei com um embasamento interessante, com pontos de vista cristãos nada convencionais ou conservadores (por mais contraditório que isso possa parecer). Numa de suas tanta citações sobre o assunto, no capítulo quatro do livro que tem como sub-título "Fraqueza Moral" surge um texto do Públio Ovídio Naso, poeta romano que viveu no mesmo período histórico que Jesus "Uma compulsão desconhecida toma conta de mim bem lentamente. Impelido dessa forma, a, por meio da razão ou da paixão, ver e aprovar o que me dá maior prazer: fazer o mal". É interessante que este trecho foi escrito por um homem que admitiu, com a força da poesia, que usa da razão e da paixão, coisas que são opostas entre si, polaridades, para aprovar "fazer o mal" e pior, que isso dá prazer. Isto é uma síntese do pensamento masculino, até porque os homens, na história, sempre tiveram o protagonismo em tudo e eram tidos como os pensadores e intelectuais, donos dos louros, progressos e etc (end of thinking capacity). A mulher era relegada a sua "função" e até hoje essa cultura do poder, não só físico, mas o poder artificial intelectual e moral, é dos homens por conta que eles tomam o espaço, ocupam, folgados, não permitindo que a mulher tenha voz, o que é uma merda. 


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Jesus veio ao mundo. Ele veio, destituiu seu espaço no lugar da trindade e encarnou, se fez carne, como humano e homem. Isto poderia ser usado da pior maneira pra mostrar por análises erráticas nos meios clérigos que o homem tem uma representatividade maior diante da mulher, afinal Jesus veio como homem e não como mulher. Não compactuo com essa linha de raciocínio. Me levo a pensar que Jesus veio como humano-homem exatamente pra quebrar preconceitos dentro do sistema patriarcal e machista, prática cultural dentro da sociedade em que ele viveu e que nós vivemos até hoje. 

Jesus nasceu de uma virgem, um milagre. Os católicos veneram com razão a virgem Maria, mas existe um ponto: quer dizer que Jesus veio para este mundo através de uma mulher e não através de um homem. Então, o filho do Deus todo-poderoso, o Deus boladão, nasce de um útero, órgão que, pra reforçar, é um órgão feminino. 

Nos quatro evangelhos vemos a presença de sua mãe Maria, que aparece mais nos textos do que o seu pai terráqueo, José. Mas é claro! Veja todo o contexto, porque se teriam mais registros do pai Zé do que da mãe Mary? Talvez, olhe lá, pra já dividir o antigo testamento do novo testamento numa quebra de tradições culturais. O anjo apareceu primeiro para a Mary e só depois que foi visitar o Zé (Mateus 1:18-20) e assim o novo testamento começa com Deus mandando o carteiro angelical falar com uma mulher e não com um homem, isso é uma porrada no conservadorismo, nas tradições culturais-religiosas. Pumba!

Imagina o Zé, todo perdidão, talvez até se vitimizando, ia casar com a Mary mas ela já estava grávida! Imagine você, homem, no papel do Zé. "Traição! Adultério!", crimes que na época se resolviam com uma chuva de pedras, na mulher, é claro, uma tradição cultural da época, alimentada com a moral e a razão. O que o Zé fez? Zé foi justo, reto, honesto. Ele não quis expor a mulher que amava. Havia amor e não um senso de razão cultural e só depois que Deusão viu essa atitude do Zé, foi que ele mandou o carteiro angelical ir lá falar com ele pra explicar umas coisas. O que Jesus puxou do pai foi a profissão, mexer com as madeiras, fazer cadeiras, mesas, relação forte, foi pendurado numa madeira também. Mas voltemos ao ponto, Jesus após do sermão do monte fala sobre adultério. Em Mateus 5:27-32 ele dá um caldo imensurável, mostra talvez o motivo pelos quais vemos estupros acontecendo ainda hoje. Seu tom de voz é direcionado para os homens: "eu digo pro vocês ai, qualquer um que olhar para um mulher com intenção impura, no coração, já adulterou". A palavra "adulterar" significa imitar, viciar dolosamente, falsificar, deturpar, corromper.

As mulheres tem a completa razão de reclamarem do assédio e o assédio começa primeiro por conta do olhar. O olho é um órgão tão abençoado que pode ser um tirano. Poderíamos passear nos caminhos ondulosos da imagem de Roland Barthes, caminhar pelos campos confusos do Sartre pra saber que o olho tem um poder enorme de despertar ações. O "saber olhar" (agora não encontro outro termo mais ideal) impede a promulgação e acarretamento de ações como um estupro, pois é um-dois para que a imaginação use a imagem e a torne em algo concreto. Isto somatizado ao aspecto de que a mulher é tida como objeto erotizado, vendido pela mídia e pregado entre os ambientes masculinos. "Mas eu nunca estuprei uma mulher". Cara, pensa, pensa bem, talvez nenhum dos 33 homens que violentaram aquela menina não tivessem nunca antes estuprado, mas estupraram e isso é um fato, incentivados pela força do olhar como poder. Me vem a mente que Tolkien, ao ter escrito Senhor dos Anéis, acertou em colocar Sauron como o mal que não possui corpo, não possui pés nem mãos, apenas um olho=olhar e por meio dele o mal tem um poder desastroso e assim quem desde o começo realmente sofre as consequências é a mulher.

Durante a vida de Jesus outros exemplos de desconstrução do homem surgem, como o trecho que está em João 4:1-30, quando ele conversa com a mulher de Samaria. No versículo 9 se encontra o abismo que havia naqueles tempo, não só entre gêneros como social-étnico "Como tu, sendo tu judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?". É outro ponto importante. Tanto Jesus como a mulher (infelizmente não há o registro do nome dela) sabiam da existência desse abismo, pois a mulher samaritana não era só discriminada entre os judeus por ser samaritana, mas também por ser uma mulher samaritana. Jesus quebra um paradigma, ele se aproxima e pede água a mulher. Ele mesmo poderia tirar água do poço, mas não, a mulher sabia que ele não tinha o balde, logo, Jesus, homem, precisava da mulher para uma coisa tão essencial para a vida: beber água. Dentro da alimentação e formação de um humano, seja mulher ou homem, a mulher é fator primordial, pois o alimento da cria é o leite materno. É óbvio: não existe leite paterno, logo, a mulher é essencial para a formação de uma criança e o homem não, aparentemente, isso parece que serve pra justificar o abandono paterno que muitos homens fazem, porque a criança não precisa essencialmente do homem. Neste pedido de um homem para uma mulher, a ilustração que pode ser feita é que o homem tem que estar ciente de suas limitações, ele pode e deve mostrar sua fragilidade, não pensar que pode dar um jeito, ser herói. Jesus, o filho de Deus boladão, pede água para uma mulher samaritana, mostra que precisa dela e não o faz por complacência, era uma necessidade real.

Outra passagem que me impacta muito é a história da mulher que iria ser apedrejada. Está em João 8:1-11, mas ela merece a leitura mesmo já sendo bem conhecida. Uns caras, todos eles escribas e fariseus, que se formos fazer uma correlação aos tempos de hoje, eram os caras cultos, algo como "pais da família tradicional judaica", arrastam uma mulher dizendo que ela tinha cometido adultério. Detalhe, trazem somente ela e não o homem e a colocam na frente de Jesus. Jesus então escreve no chão. Isto aqui me intriga muito, pois no texto não se diz o que ele escreve no chão e eu fico imaginando o que foi escrito ainda mais diante daquela cena. Os caras queriam apedrejá-la porque aquilo era lei: a mulher que cometeu adultério deveria ser apedrejada. Novamente a cultura se faz presente com suas tradições. Jesus se posta entre eles e a mulher e diz "quem aqui não cometeu pecado que atire a primeira pedra". Assim, a própria consciência dos caras foi pesando. Ninguém atirou alguma pedra. Foi um homem que entre homens se levantou e viu quão irracionais os homens estavam sendo. Jesus teve o papel não de herói, nem salvador, ele apenas não aceitou a injustiça, ele tomou parte, um sinal de empatia, algo que nenhum deus poderia fazer, mas apenas os humanos podem fazer. Como homem se posicionou diante dos outros homens que seguravam em suas mãos o poder e assim assinalou que aquele ato de violência não poderia ser feito. É uma postura de alguém como minoria, se levantar diante de uma maioria e apontar algumas verdades. Isso também é político, ah, como é!

Pra terminar, achei um poema que procura exemplificar um pouco o que sinto. Débil, impotente, um erro, mas pela graça envergado no processo de mudar e mudar hábitos entranhados. O poema de Friedrich Schille, intitulado "A Dignidade das Mulheres", traduzido para o português por Maria do Sameiro Barroso. O olhar do homem para a mulher, chegando a cume de afirmar que a paz, tem a voz feminina, assim como a família, que reúne. 


Nos reinos do poder masculino,




Vence, por direito, a força,




Pela espada se impõe o cita




E escravo se torna o persa,




Esgrimem-se entre si, em fúria,




Ambições selvagens, rudes,




E a voz rouca de Éris domina,




Quando a Cárite se põe em fuga.





Porém, com modos brandos e persuasivos,




As mulheres conduzem o ceptro dos costumes,




Acalmam a discórdia que, raivosa, se inflama,




Às forças hostis que se odeiam




Ensinam a maneira de ser harmoniosa,


E reúnem o que no eterno se derrama.