terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Não há retrospectiva.


Sabe aquele assunto de praxe que os jornais, noticiários da TV, programas de fofoca e até igrejas costumam fazer nesta época do ano? É isso mesmo, a maldita retrospectiva. Mas ela não é tão maldita assim, pois muita gente gosta de "se alembrar" do passado (como diria uma mulher dentro do ônibus). Neste ultimo ano vivi muito em pouco tempo. Não vou fazer a retrospectivo literal de minha vida neste texto, mas as entrelinhas dizem o indizível.

Foi um sufoco encarregar-me do meu futuro. Dependo de minha familia para muitas coisas, mas mesmo assim sempre a real liberdade de seguir meus trilhos. Ganho meu dinheiro, ajudo nas contas quase que "malvadas" de casa, entre outros, como estudar numa faculdade que tem dado mais mancadas do que aulas nestes últimos tempos. Me dei o direito de querer apaixonar-me, depois retirei esse direito de mim e depois vivi à mercê de uma vida boemia, com copos dourados, finos tubos de exalação da maldade e alucinações de minhas trilhas mal caminhadas. Mudei e desmudei meus conceitos sobre igreja, a importância de um corpo ativo, equilibrado e dançante em meio a essa sodomia que é nosso mundo contemporâneo. Escrevi tanto e tantos textos ruins, desenhei tanto para um único projeto, as coisas foram tão interessantes, imprevisíveis, melancólicas, como um amor perdido e recuperado das cinzas, como um quadro desmanchado por falta de coragem de terminá-lo, uma camiseta aberta para divulgar no tempo a frase que tenho tentado praticar. Ganhei muito, gastei muito, como muitos que conheço. 

Em meio disso tudo fiz um estudo inebriante, que durou quase dois meses, sobre o vazio. Demorei-me tanto para escrever minhas conclusões mutantes que ainda sofrem alterações de curso mediante o impacto imprevisto de meteoritos da vida. Mas me conheci profundamente, e me vi espelhado nas letras diáfanas do meu caderno vermelho. Li novamente os livros do Fernando Sabino, outros do García Marquéz, recobrei a memória da minha língua de infância e aprendi com Amóz Oz detalhes reveladores para uma escrita em inúmeras vozes, como soprano, contralto, baixo, barítono, tenor... Gastei meu tempo nas imagens da vida, elaborando uma exposição que foi demolida fisicamente mas que se ergueu no pensamento como uma lição eterna dos suspiros e feitoria das mãos de homens e mulheres dedicados ao respirar da arte. Tive a angustia de partir e a felicidade de chegar. Como todos os anos passado, completei mais um ano de dura existência numa geração marcada pela infidelidade dos olhos, das mãos, dos pés, do peito. 

Não me importo. O ano termina como os outros terminaram. Sempre teremos retrospectivas mas no final, não só retrospectivas e quase deixam de ser retrospectivas, porque parece que acabamos vivendo tudo de novo, de um jeito diferente e utilizamos a frase de praxe "é tudo um ciclo". E daí? Em meio a tudo isso o amor se revela amor, sem ser "menos forte" ou "mais forte" assim como uma lembrança, que somente é lembrança, sem a intensidade que esses poetas de chapinha declaram nos portais de virtudes pagãs. 

E Deus, continua sendo minha melhor lembrança praticada. Sem ele eu não me recordaria das outras. 




terça-feira, 21 de dezembro de 2010

diz seis para quem tem pressa para o 20-11

Eu estava parado, em frente o Martinelli, enquanto via o chuvisco passar e me veio um pensamento astronomicamente brioso e contrário. "Pise no catarro que acabei de cuspir, pois na verdade ele era pra atingir você". Nem me pergunte porque pensei numa coisa tão horrenda, mas para mim, soou graciosamente, mais bonito que muitas frases "microondas", já prontas na língua dos transeuntes mercenários. 


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Em breve o sul virá. 
Em breve,
se vai para o norte. 
Sul e norte não serão nada. 



terça-feira, 14 de dezembro de 2010

14 de um Doze anormal

Acordei pra você. Como se fosse a unica coisa que importasse. Importasse hoje. Será que você acredita? 

...

Eu tô com um horário meio maluco na cabeça. Como a faculdade "terminou" em parte, chego em casa as 6 ou 7, quando o dia ainda esta claro e a chuva tem o seu cenário perfeito para cair: final de expediente. Chego em casa podre, e durmo dando um oi curto para o pessoal. Isso aconteceu ontem, dia 13, mesmo quando tirei a tarde para estar com ela e depois tomar uma chuva interminável, só porque fui besta de levar "um guarda-chuva" bastardo para o consultório dentista onde ela estava sendo atendida. Bem, vocês, as almas resumidas que lêem estes textos devem estar entendendo pouco. Vou ser sintético. 

Dia 13, uma segunda-feria peculiar, vim trabalhar com os ânimos a pilha, pois no domingo tinha combinado com a "chica", pra a gente se encontrar. Ela viria almoçar comigo no centro, mas eu fui além: tiraria a tarde para ficar com ela, com a condição de leva-la ao dentista as 4 horas. E assim se sucedeu. Vou pular uma parte do trajeto e dos afagos supridos, isso não interessa a vocês, mas quem sabe ainda publico um texto com esses detalhes. 
Eu vestia uma camisa rosa, mais pra salmão, e quando a encontrei me esperando no ponto final do Praça Ramos 8700-10 perto do Largo da Memória, como combinado, vi uma menina com um vestido rosa e custou-me acreditar que era ela... 
Bem, pulando meios... Quando enfim deu o horário para leva-la ao dentista, o céu começava a ficar nublado, mais o cheiro de chuva ainda não existia. Enfrentamos um ônibus lotado na Paulista e mal percebi minhas lembranças ruins sobre aquelas redondezas. Chegamos no horário e deixei-a com um beijo curto, pois tínhamos combinado que, depois que a consulta terminasse, ela iria passar em casa, já que esta estava a três quarteirões do consultório onde ela seria atendida. Quando subia a rua de casa, começou a chuviscar. Quando entrei em casa, caiu o céu. Ai lembrei "Como ela vai vir pra cá? Vai se empapar toda!" Pensei rápido, peguei outro guarda-chuva e desci a rua. Quando cheguei ao consultório, já metade cheio d'água, encontrei a familia reunida, não só ela, mais o pai, a mãe, a irmã e até o primo que com três anos cantava duas musicas do Elvis. Pensei em alguma desculpa, ops, não, não deu, as vezes minha improvisação não da nada certo. "Ah, trouxe o guarda-chuva, caso queiram fazer uma visita em casa...". Claro que eles não iriam fazer uma visita em casa, afinal, nunca foram em casa e a agenda deles estaria cheia. Bem, foi horrível. Eu não sabia onde me enfiava. Até que sem mais delongas, me despedi como pude da chica e me vi na rua novamente, como um cão perdido, que mais tarde chegaria molhado, inteiramente molhado. 
Quando me deitei ontem, decidi esquecer de tudo. Acordei à meia-noite, e me pus a escrever para aliviar as saudades premeditadas. As palavras dela chegaram perto de minha imaginação. "Sabíamos que teríamos pouco tempo juntos..." 
Hoje, ainda sem saber noticias dela, confirmo: "Vamos ter pouco tempo juntos, mas essa época de tempos curtos passará... você vai ver, chica". Outra coisa que constatei: infelizmente vou ter que comprar um carro. Mas isso não é minha prioridade. Tô cansado de ficar empapado. 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Depressa.

Estou terminando o livro "Viver para contar" Do García Márquez. Haja desprendimento. Quase morro de inveja, uma inveja obtusa, tão interior, que me faz sangrar quando tento cuspi-la. Cheguei no trabalho com o leve auto-tratamento estúpido de terminar esse livro ainda hoje, somente por raiva da pobreza gloriosa de Gabito. Não sei se a arquitetura é o que eu quero, já que ela me fascina, mas se mostra tão passageira e promíscua quanto as mulheres da vida. Seria somente mais um jeito ingrato de me fazer encher os bolsos de dinheiro e a cabeça de remorsos. Mas com a mesma intesidade que o dinheiro entra o dinheiro saí, sem deixar um "adeus" pregado no tecido dos meus bolsos. porém, não é nisso que penso quando me sento na poltrona do escritório, em frente ao computador que conquistei com o tempo que tenho dedicado em "ajudar a re-urbanizar favelas". Hoje, dia 13 de um dezembro lúcido e alcoólico, é o dia em que espero poder abraçar o futuro com a total dedicação de um militar consagrado, lutando por uma pátria que não é minha, mas que quero reerguer em meu âmago: a pátria do amor. 
Já nem sei o que é isso, mas lutar por isso em mim parece ser de importância global, pois quero manter em equilíbrio este mundo despropositado. E ferre-se as tatuagens de ontem, onde fui marcado pelas cinzas da falta desta pátria coesa, louca para tudo o que é verdadeiramente sem loucura e tão reservado em si, cheio de prazeres incondicionais para si mesmo, pois tudo hoje, gira em si, e não mais em nós. 
O café que bebo sentando olhando para a tela onde escrevendo estas palavras em estilo georgia e em tamanho normal, tem um gosto azedo, uma mistura de água da sabesp com água fervida. A bolacha de chocolate possuí um sabor que no fundo me lembra o chocolate. As tabelas com valores astronômicos sobre obras da prefeitura me lembram que ainda sou herdeiro da arquitetura supérflua. Sou um estagiário embustido. Meu disfarce é estudar arquitetura quando meu titulo profissional deveria ser "Vagabundo Pleno ou Senior", não passo de um estudante sortudo e um profissional mediano. Gasto mais do que a metade do meu salário em cerveja e livros e não sei qual é a pior coisa, mas no fim de tudo estou mais lúcido do que aqueles que bebem litros do café da empregada nordestina que é mais simpática que a nossa nova "presidenta". E meu bolso que reclama, já que tenho dividas acumuladas que estão me enchendo o saco e ainda assim não sei de onde estou tirando dinheiro para guardar na poupança. Tudo para viajar pra um país minúsculo, famoso pelo azeite, o bacalhau e as boas fotos. Claro, é ai que meu dia tem seu sentido e é precisamente ai onde este texto fanfarrão começa. 
Este texto começa na recordação de minha viagem de volta de Porto a Vendas Novas, em um dezembro gelado e chuvoso. Fui visita-la, sem chance de fazer nada além que um "oi" e conhecer o mais novo membro da familia dos Cristófanos: uma cachorra simpática de cara amassada que me conquistou e sem querer a conquistei também. Era só pra ver "como estavam as coisas", uma desculpa pra sair da reclusão da fazenda das "boas novas". Na verdade, a viagem de trem sempre me aprisionou em fantasias. Li um livro do Nuno Júdice e depois olhei por fora da janela. Uma chuva espessa desmanchava-se na janela, espalhando-se com o vento. Cruzei os braços. Pensei nela, com seu sobretudo verde seu cabelo longo semi ondulado, seus óculos de massa e seu sorriso de criança arteira. Foram três dias curtos pra tanto que tínhamos pra dizer, falar, ou fazer. Mas porque as recordações de um ano atrás são descarregadas neste teclado hoje? Hoje, somente hoje, vou entregar-me ao ruminar de um relação mal resolvida que não sei se vai se resolver, já que o sabor de incerteza é o que mais me deixa ansioso e faz meu coração problemático ter seus batimentos mais fora do ritmo que o normal. Tirei a manhã para me lembrar dos nossos primeiros dias, de como engordamos e emagrecemos, de como fomos resolvidos e mal-resolvidos, de como éramos dois desde sempre e que sem querer nossos personagens literários eram um. Mas é assim que as coisas se agitam, e as células se trombam, produzindo o fulgor de letras e frases e desordem. 
Hoje faço tudo na pressa, para ver o tempo passar, pelo menos de manhã, e quando o meio-dia chegar estarei cansado da pressa e vou viver tão pausado que seria uma curta eternidade que dividirei em palavras e ideais com aquela de Porto que é dona das ultimas cartas que tenho escrito e enviado. na verdade só escrevo para passar o tempo, entre planilhas, números, cronogramas e aprovações de templates para meu novo cartão de visita. Em meio disso, ainda existe o desejo de terminar de ler o livro hoje e começar outro sem parar, como se o remédio para minha doença do descobrimento do amor fosse solucionado com textos intermináveis e duras doses de teorias sobre o vazio, a fotografia e suas limítrofes e a cegueira opcional. 
Mas em breve chegará a hora em que não saberei o que fazer, o que direi, o que escutarei. Só sei que vou ter que improvisar mais que o jazz e fazer mais lindo que o time de Portugal contra Espanha em seu ultimo jogo de futebol. Não quero que seja perfeito, quero que seja ideal, pois sei que se rolar alguma coisa para o nosso futuro, essa "coisa" não será perfeita já que eu sou dono de metade da porcentagem de erro. Mas em meio tudo isso ainda é bonito ouvir "Shape of my heart" do Noah and The Whale

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A apresentação de uma arena 02/12/2010

Ontem, caros amigos, apresentei juntamente com uma legião de estudantes, uma proposta para uma Arena. Arena de shows, esporte, teatro e derivados. A liberdade "imposta" pelos professores causou arrepios nos aspirantes de arquitetura. Mas tudo bem, como toda apresentação de projeto na sala de aula tivemos um pequeno atraso de 40 minutos, pois cada aluno tinha que passar o arquivo para o computador e como brasileiro gosta de fila, logo ja se foi formando uma fila que me lembrou o INSS aqui do centro. Cada aluno com uma cara mais cansada, com os beiços moles, um apelo ao descanso. O meu grupo, por falta de sorte ou esperteza, foi um dos últimos em meio aquela cretinada. Normal. Acontece. Eu já estava estressado. Gerar imagens pelo Autocad matou o que restava de minha simpatia e olha que ela já é pouca. Mas meu grupo é equilibrado, o Sérgio às vezes fica fora do controle, mas é só dar uma Stella Artois na mãos dele que ele se acalma e era isso que eu queria naquele momento, uma gelada, pois o dia estava sendo pior que uma merda, estava sendo muito down, tão down que comecei a ouvir musicas de corno, mas não cheguei ao rebaixamento de ouvir sertanejo. Os projetos que meus colegas apresentaram foram os mais variáveis possíveis, bons e ruins, a maioria ruim, péssima. Foi quando me dei conta : "tô ferrado...". Os professores viam os projetos com uma atenção altiva, passando rapidamente  e repetindo paulatinamente a palavra que nos viria atazanar por dias:"Cortes! Cortes" . Um gritava e o outro com voz de gralha balbuciava soluções estruturais que os alunos engoliam como se fosse o pior remédio. Teve um grupo de DP que ficou com DP novamente porque fez o projeto no terreno errado! Eu não soube me controlar, tive que sair da sala pra dar risada da desgraça alheia, pois tamanha ignorância nunca tinha se apresentado diante dos meus olhos numa sala de aula do curso de arquitetura. Depois de um tempo comecei a dar risada sem motivo, e percebi que era somente o nervosismo que estava variando de interface. Mas projeto vai, projeto vem, chegou minha hora de apresentar. Meu nervosismo chegou ao cúmulo do cinismo e quase tive um ataque epiléptico quando abriram a apresentação em power point e os três professores, que antes para mim pareciam uma gralha, um golfinho e um albatroz, agora eram vilões, ou melhor, uma versão masculina da Cruela Devil. A apresentação estava péssima, horrível. Esqueci de gerar a imagem de  um pavimento e numa fúria indescritível fui falando mais rápido, enrolando minha língua, falando em russo, vietnamita, molonguês.... tudo menos o português claro e entendível.  Quem já me viu nesse estado sabe que ao mesmo tempo que é engraçado é penoso. Foi penoso. Não me atrevi a olhar nos olhos dos meus amigos, temendo pela reprovação descarada de um estudante de arquitetura que vê um projeto ruim. Não vi a hora de terminar, e cada palavra balbuciava era um quilo a menos. Até que o professor com voz de gralha viu um defeito. Gelei. Algo com a treliça metálica, que seria difícil de executar, "você acha que eu não sabia disso?", pensei. Mas o outro professor que parecia um pardal (não revelo nomes para não parecer áspero, só quero fazer vossa imaginação funcionar...) tomou a frente e trucou para o professor voz de gralha: "Eita, demoro pra entender o projeto, ein?!". Silêncio na maloca. Tinha acontecido isso mesmo, um professor tinha defendido o aluno na sala de aula e na frente de outro professor. Tive que terminar a apresentação com um suspiro de desvalido. Nem pensei. Sai da sala de aula derrotado, com fome, com sede, com vontade de fumar um maço em meia hora. Fui diretamente para a churrascaria em frente a faculdade e afoguei minhas mágoas em pedaços abundantes de picanhas nobres, fraldinhas, heinekens, e depois afundei-me numa cama que já é funda, pensando "vou ter que largar arquitetura". Fechei os olhos e dormi.