Sabe aquele assunto de praxe que os jornais, noticiários da TV, programas de fofoca e até igrejas costumam fazer nesta época do ano? É isso mesmo, a maldita retrospectiva. Mas ela não é tão maldita assim, pois muita gente gosta de "se alembrar" do passado (como diria uma mulher dentro do ônibus). Neste ultimo ano vivi muito em pouco tempo. Não vou fazer a retrospectivo literal de minha vida neste texto, mas as entrelinhas dizem o indizível.
Foi um sufoco encarregar-me do meu futuro. Dependo de minha familia para muitas coisas, mas mesmo assim sempre a real liberdade de seguir meus trilhos. Ganho meu dinheiro, ajudo nas contas quase que "malvadas" de casa, entre outros, como estudar numa faculdade que tem dado mais mancadas do que aulas nestes últimos tempos. Me dei o direito de querer apaixonar-me, depois retirei esse direito de mim e depois vivi à mercê de uma vida boemia, com copos dourados, finos tubos de exalação da maldade e alucinações de minhas trilhas mal caminhadas. Mudei e desmudei meus conceitos sobre igreja, a importância de um corpo ativo, equilibrado e dançante em meio a essa sodomia que é nosso mundo contemporâneo. Escrevi tanto e tantos textos ruins, desenhei tanto para um único projeto, as coisas foram tão interessantes, imprevisíveis, melancólicas, como um amor perdido e recuperado das cinzas, como um quadro desmanchado por falta de coragem de terminá-lo, uma camiseta aberta para divulgar no tempo a frase que tenho tentado praticar. Ganhei muito, gastei muito, como muitos que conheço.
Em meio disso tudo fiz um estudo inebriante, que durou quase dois meses, sobre o vazio. Demorei-me tanto para escrever minhas conclusões mutantes que ainda sofrem alterações de curso mediante o impacto imprevisto de meteoritos da vida. Mas me conheci profundamente, e me vi espelhado nas letras diáfanas do meu caderno vermelho. Li novamente os livros do Fernando Sabino, outros do García Marquéz, recobrei a memória da minha língua de infância e aprendi com Amóz Oz detalhes reveladores para uma escrita em inúmeras vozes, como soprano, contralto, baixo, barítono, tenor... Gastei meu tempo nas imagens da vida, elaborando uma exposição que foi demolida fisicamente mas que se ergueu no pensamento como uma lição eterna dos suspiros e feitoria das mãos de homens e mulheres dedicados ao respirar da arte. Tive a angustia de partir e a felicidade de chegar. Como todos os anos passado, completei mais um ano de dura existência numa geração marcada pela infidelidade dos olhos, das mãos, dos pés, do peito.
Não me importo. O ano termina como os outros terminaram. Sempre teremos retrospectivas mas no final, não só retrospectivas e quase deixam de ser retrospectivas, porque parece que acabamos vivendo tudo de novo, de um jeito diferente e utilizamos a frase de praxe "é tudo um ciclo". E daí? Em meio a tudo isso o amor se revela amor, sem ser "menos forte" ou "mais forte" assim como uma lembrança, que somente é lembrança, sem a intensidade que esses poetas de chapinha declaram nos portais de virtudes pagãs.
E Deus, continua sendo minha melhor lembrança praticada. Sem ele eu não me recordaria das outras.




